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LIBERTATEM - capítulo 11

- Acostume-se a pensar com mais clareza. Seus sentidos foram expandidos.
Era Thráf, que aparecia ao meu lado, consolando-me como entendia ser correto.
- Percebo que neste mundo não entendemos ainda o conceito de liberdade.
- Entre outros tantos! Preferem a interpretação pessoal ao entendimento pleno e único.
- Somos mais escravos de nossa ignorância, que de outros interesses. E me parece que quanto mais pensamos saber, mais presos ao erro ficamos.
- Por esse motivo, principalmente, temos de agir sem pressa e respeitar limites.
- Até aquele baixinho neurótico, seu amigo, já me parece mais sensato que meus iguais.
- Entender é o primeiro passo, Natan! Quando conseguir se solidarizar com os próximos, sem esperar que o entendam ou ajam bem, estará pronto para libertar a mente.
- Fácil de compreender e muito difícil de botar em prática.
Porém, conforme tentava asserenar o ânimo e olhar as peripécias de meus iguais como algo mais distante, analisando com atenção, sem participar, diretamente, passei a enxergar um bom bocado de ações intempestivas, plenas de emoção e pouca racionalidade, sem contar as atrocidades físicas, burocráticas, institucionais, sempre com aparência de legalidade, ou então protegidas por quem deveria aplicar, com justiça, a lei. Agressividade e torpeza legalizadas.
O pior era que conseguia enxergar o íntimo de muita gente, e entendia que os vitimados, se estivessem no poder, agiriam de forma semelhante, com poucas exceções. Ouvia aqueles que falavam bonito, defendendo ideais, justiça, preservação, e percebia, em suas entranhas mentais, o comodismo, o pouco caso real com o que verbalizavam, a confusão de raciocínio em que se mantinham, a lassidão e os vícios que cultivavam, e ainda os interesses pessoais que defendiam. Era como uma performance teatral, às vezes consciente, outras vezes, não.
Pouco a pouco, a raiva ou indignação que me acometiam, foram se transformando em pena, lástima, pela situação íntima em que via todos chafurdados. Maior tristeza dava vê-los eufóricos, agitados, aguerridos, sentindo-se plenos de conhecimento, lógica, altivez e correção, enquanto seu tônus vital, desperdiçado em objetivos ilusórios e efêmeros, esvaía-se, tornando-os, progressivamente, estratificados e mesmerizados em seus propósitos.
Pensei no mar, e transportei-me, instantaneamente, para uma praia erma. Sentindo-me só, olhava a imensidão oceânica e a comparava à mesquinharia presente na mente da maioria de nós, macacos pelados. Pensei na órbita da Terra, e para lá me transportei, olhando para o nosso mundo e pensando o mesmo. Como é que nos tornamos tão estúpidos?
Apesar de todo o treinamento e conhecimento que os visitantes inseriram em mim, ainda me sentia pouco capacitado a representa-los perante a sociedade terrena, em seus múltiplos aspectos e formas. Nos últimos dias, ao invés de ter a mente cheia de novos horizontes, como imaginava, de início, pareceu-me que crescia um oco em minha cabeça. Não exagero ao dizer que era como se me tornasse, progressivamente, vazio de questionamentos, expectativas, planos, objetivos ou impressões. Via, ouvia, sentia, sem desejo de interpretar ou opinar.
- Esse é o melhor sintoma que esperávamos observar em seu íntimo, Natan.
Thráfsma e Aldeín caminhavam ao meu lado, sem que me desse conta.
- Vocês bem que podiam parar de me assustar com esses aparecimentos repentinos.
- Estamos andando consigo há algum tempo, mas não nos percebia.
- Estavam invisíveis?
- Vamos lhe mostrar! Pense em ficar leve e se concentre.
Fechei os olhos, fiz o que me sugeriu e, efetivamente, senti como se levitasse. Olhei em volta e, putzgrila! Estava mesmo levitando, a cerca de um metro do chão. Eles riam de minha estupefação (cara de idiota), e pediram que os acompanhasse até um carro próximo. Entraram, ou melhor, atravessaram o carro na maior, e disseram que eu poderia fazer igual. Já estava tão na deles que nem titubeei. E não é que deu certo?
- Tô fantasma, igual a vocês?
- Você mudou sua estrutura corpórea, tornando-se mais sutil, e está, neste momento, em dimensão paralela e adjacente à física, invisível para quase todos os humanos. É onde nós estávamos, quando não nos via. Agora já conhece outro de nossos pequenos truques.
- Pois isso vai ser muito útil para me tirar de enrascadas, quando agir como me pedem.
nuno andrada
Enviado por nuno andrada em 03/11/2019
Código do texto: T6786374
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Sobre o autor
nuno andrada
Tubarão - Santa Catarina - Brasil, 64 anos
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nuno andrada