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TRANSVIVÊNCIA DISTINTA - capítulo 04

Décio, Marina e Sara foram para casa. Elas o acarinhavam, com abraços e beijos aos montes. Timidamente, ele retribuía e tentava ser o que nunca fora: carinhoso. Aquela mulher, que o tratava com tanto enlevo, despertara algo diferente em seu íntimo. Sara, por sua vez, apesar de não ser sua filha, ao menos de seu ponto de vista, parecia-lhe familiar, como se a conhecesse há muito. Pela primeira vez entrou num ônibus, estranhou a catraca, não sabia usar o bilhete nem lidar com o dinheiro. Quando viu o bairro pobre, de casas inacabadas, rua de terra, mato em volta, sentiu aperto no peito, como se o cenário representasse um exílio, penitência, castigo. Sentia ímpetos de fugir dali, e, ao mesmo tempo, de ficar com elas.
- O que foi, meu bem? Está sentindo alguma indisposição?
- Não! Só não consigo recordar este lugar. Chato, né?
- Calma! Vou ajudar em tudo que precisar. É tão bom ter você de volta!
Caminharam onze quarteirões, entraram em viela estreita e subiram o morro. Chegaram a um beco, onde se viam dez pequenos barracos de madeira, sendo o último, que já beirava a encosta escarpada, o do casal. Décio ficou olhando, detidamente, e seu sentimento era de consternação. Pensou, de novo, em pular fora da roubada em que o fantasma esquisitão o colocara, quando Sara pegou sua mão e beijou. De seus olhinhos saltaram lágrimas sentidas.
- Pedi tanto a Deus pra que você voltasse comigo pra cá, paizinho!
Ele interrompeu suas reflexões e fixou-se no olhar, no toque e nas palavras da menina, sentindo coisa estranha, que bagunçava seu íntimo. No mesmo instante, Marina o abraçou por trás e beijou sua nuca. O carinho das duas fez com que esquecesse, por instantes, a tristeza.
Pela primeira vez, desde que tinha lembrança, sentiu-se parte emocional de uma família, e se pegou pensando em como fazer para ajudar aquelas duas delicadezas que lhe deram por companhia. Nunca antes pensara senão em si mesmo. Espantou-se com a própria mudança.
Como poderia se livrar de tanta pobreza, miséria e adversidade?
Nunca trabalhara, então como iria conseguir o sustento necessário?
Percebeu uma mensagem se formando em sua mente:
“Iniciativa, atividade e disposição, podem mudar, construir, melhorar; mas a passividade, entrega e revolta, destroem a paz e a harmonia.”
Não era o tipo de pensamento que costumava rolar em sua mente. O fantasmão queria lhe dizer algo? Décio, enquanto Jorge, jamais gostou de provérbios ou parábolas, nunca fora religioso nem demonstrara tendência a filosofar. A mensagem fazia sentido, mesmo que de um jeito meio cafona. Lembrou que, mesmo que nunca tivesse trabalhado, conhecia muitas coisas úteis, que poderiam melhorar o ambiente, ocupar seu tempo e lhe dar prazer. Fora informado que a assistente social do hospital encaminhara seus papéis para receber benefício, enquanto o médico o mantivesse afastado do trabalho.
Isso ajudava, mas precisava providenciar um bico, já que Marina também largara o serviço como costureira para cuidar dos dois.
- Meninas! Amanhã vamos passear e ajeitar nossa vida.
- De que jeito, pai? Você está tão diferente!
- Pra pior ou pra melhor?
- Eu acho que pra melhor, né mãe?
- Acho que sim. Ainda não me acostumei com as mudanças, mas é tão bom ter você animado e disposto, que nem me importo se está igual ou não.
Saíram cedo, em direção à universidade, no centro da cidade. Marina não entendia o objetivo do marido, porém, lá chegando, Décio foi até a coordenação de ciências sociais, onde sabia existir projeto de auxílio a famílias carentes. Como Jorge, fora doador e patrono daquilo. Conversou com a encarregada, apresentou documentos e se cadastrou, sendo informado que receberia visita de constatação, e, sendo aprovado, receberia móveis, equipamentos reciclados de informática e outros benefícios. Foi ofertada bolsa a Sara, para a pré-escola, que a universidade mantinha, cesta básica, atendimento dentário e médico, extensivo à família.
Mudanças a caminho, espantando mãe e filha, que nunca tinham visto coisa igual.
Ele começou a se sentir útil, ativo, provedor. Sentimentos estranhos e inéditos.
Em tão pouco tempo imerso na vida de outro, e já não lhe doía tanto a falta de tudo que possuía antes. Até a pobreza passou a ser um desafio, em lugar de revolta ou tristeza.
nuno andrada
Enviado por nuno andrada em 26/11/2019
Código do texto: T6804506
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Sobre o autor
nuno andrada
Tubarão - Santa Catarina - Brasil, 64 anos
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nuno andrada