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TRANSVIVÊNCIA DISTINTA - capítulo 05

Décio exultava de alegria, ao passo que Marina escutava tudo assustada. Voltaram pra casa, pensando em arrumá-la bem (até onde fosse possível), porque a visita de inspeção seria dali a dois dias. Quando o entrevistador chegou, viu um lugar diferente daquele que Décio conhecera no primeiro dia. Tudo limpo, cheiroso, de tal modo organizado, que o rapaz ia ticando os itens do questionário, sem nem mesmo perguntar. Saiu bem impressionado e disse que o cadastro seria, efetivamente, aprovado, sem a menor dúvida.
Conseguiram cama, alguns móveis, utensílios, computador, acessórios e dispositivo para internet gratuita, válido por um ano. Na segunda visita à universidade, ele verificou que na faculdade da terceira idade, certas mulheres produziam peças bordadas, tricotadas, que apenas expunham para os passantes. Sugeriu a criação de um site, em que os trabalhos pudessem ser expostos, combinando comissão sobre peças vendidas. Tinha experiência em computação. Não só encaminhou o site, como foi em outras associações semelhantes e propôs o mesmo acerto. Não obteve cem por cento de aceitação, mas conseguiu o suficiente para garantir bom estoque e preços interessantes. De tanto informar a vizinhos sobre direitos e possibilidades, acabou, por incentivo da própria universidade, organizando centro de atendimento à comunidade, no barraco ao lado de sua casa, cujo inquilino havia saído. A instituição se encarregou da mobília, aluguel e contas, cabendo a ele gerenciar o negócio e promover pequenos cursos no local, recebendo ajuda de custo e o empréstimo de um veículo, em horários combinados, para entrega de seus produtos, vendidos via internet, e workshops em outras comunidades, agendados pela assistente social.
Logo o negócio deu origem a mais dois outros. Comprou seu barraco e o vizinho, unindo-os para formar casa mais ajeitada para a família. O centro de atendimento expandira e se tornara escola bem freqüentada. Uma noite, quando se preparavam para dormir, após darem boa noite a Sara, que seguira para seu quartinho, Marina sentou-se à cama e olhava fixamente para Décio.
- Alguma coisa a incomoda?
- Gostaria de dizer que não, mas tenho que dizer que sim.
- Não esconda nada de mim. Seja sincera e me diga tudo que pensa.
- Lembra de como tudo começou entre nós?
É claro que ele não tinha como saber, mas precisava sair pela tangente.
- Não! Desde a doença, minha memória ficou muito falha.
- Você namorava minha prima, e um dia a viu saindo de um motel com seu colega. Foi até a casa dela e quem o atendeu fui eu. Ela me contou tudo e fugiu, com medo de você.
- Não lembro disso. O que aconteceu em seguida?
- Pedi que se acalmasse, mas você chorava e contou que nunca fizera sexo com ela, que lhe dizia ser virgem. Lembrei que Edna o chamava de boçal.
- Bela prima, hein? Se fosse hoje eu lhe diria umas boas.
- Fomos à casa do rapaz, e nos informaram que os dois tinham viajado atrás de oferta de emprego. Ao voltarmos, senti sua tristeza, e sugeri que passasse a noite em minha casa.
- Eu aceitei? Não lembro, mas estou curioso.
- Achou que poderia ser ruim para mim, que os vizinhos iam falar, mas lhe disse que como minha prima tinha ido embora, teria de achar outra casa menor e mais barata para alugar, então não fazia diferença o que pensassem. Acomodei-o num quarto e quando fui dormir no outro, ouvi seu choro sentido. Voltei e fiquei com sua cabeça em meu colo por um tempo, mas não sei como, acabei dormindo ali mesmo e, quando acordamos na manhã seguinte, tínhamos feito sexo.
- Como assim? Eu podia estar alterado, mas e você?
- Não sei explicar o que aconteceu. No dia seguinte nos separamos, e só voltamos a nos encontrar dois meses depois, quando lhe falei que estava grávida, e que me sentia no dever de dizer que a criança era sua, mas nada queria de você.
Ele ouvia a narrativa, tentando imaginar a situação. Surpreendentemente, chorou.
- Você não me amava, eu sabia, mas era tão íntegro que quis, imediatamente, se casar comigo e assumir a família. Fiquei sem ação, pois estava apaixonada, mas não queria prendê-lo, e ainda sinto que o amo, profundamente, mas sei que não sou correspondida.
nuno andrada
Enviado por nuno andrada em 27/11/2019
Código do texto: T6805251
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Sobre o autor
nuno andrada
Tubarão - Santa Catarina - Brasil, 64 anos
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nuno andrada