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'MORGANA - UM SONHO BOM'


Chovia no dia em que nos casamos na capela "San Gimignano", situada a quilômetros de nosso vilarejo. Não via motivos para percorrermos uma distância tão grande quando poderíamos ter tido a benção de Deus na igreja de nossa cidade. Porém, segundo Giovanni, casar longe dali seria extremamente vantajoso, pois eu conheceria a pequena e encantadora cidade medieval, encarrapitada no alto de um morro da Toscana, seus habitantes bem como seus hábitos, costumes. Bufei, fuzilando-o com meus olhos, achando sua oferta nada menos do que ordinária e, somente aceitei casar-me tão distante de nosso lar quando ele sussurrou em meu ouvido seu plano sórdido em me embebedar com o vinho branco, fruto da "Vernaccia di San Gimignano", uma uvinha delicada e aromática nascida nas encostas arenosas e pouco férteis da mesma cidade. Uma delícia a uva, o vinho e a proposta indecente que ele cumprira logo após a cerimônia.


Conquanto eu estivesse nas nuvens, contando os dias para o nosso enlace, percebera laivos de pavor naqueles olhos lindos, negros e docemente incisivos.



- Vc parece estar fugindo de alguém, amor. - Observei enquanto estávamos a caminho da "Colegiada" e seus ricos afrescos e eu mal sabia o que seria um afresco. Gio me ensinara seu significado durante a viagem, dentro de uma adorável e aconchegante carruagem com assento em couro vermelho, dois cavalos guiados por um sombrio condutor. - Por mim, estaríamos casados agora mesmo pelo pároco de nosso vilarejo. Gastar dinheiro à toa, com tanta coisa a ser feita em nossa casa. Nossa casa...- Repetia vagarosamente, embevecida, olhos vagos e um sorriso idiota bailando em minha boca entreaberta. - Sim! - Fixei meus olhos autoritários nos dele. - Não me olhe deste jeito! Sabe que temos que fazer reparos na lareira e consertar aquela porta que range como uma velha com artrite! - Rindo, ele, deslizou sua mão macia em minha nuca e seu polegar acariciou meu lóbulo esquerdo demoradamente, sem dar uma palavra sequer. Aquele seria um gesto de carinho que guardaria consigo durante anos e eu o conhecia o suficiente para entender que ele simplesmente gostaria de evitar aquele assunto exaustivamente discutido entre nós dois nos dias que antecederam nossa união. Por que diabos vc evita as pessoas daqui??? E por que eu nunca posso visitar a cidade, ver as modas ou assistir a uma missa aos domingos???, eu o questionava, intrigada, sem respostas. O pobrezinho sofria em silêncio e seu sofrimento rasgava-me ao meio e, por mais que eu gritasse, praguejasse ou o xingasse, arremessando-lhe as panelas, ele permanecia calado, calando-me com seus beijos quentes, exploradores, devastadores. Devo confessar que o provocava apenas com a malévola intenção de rompermos para, logo em seguida, reatarmos com requintes de devassidão.



E lá estavam os tais afrescos que cobriam praticamente todas as paredes e as arcadas em mármore listrado em preto e branco. Estaquei, extasiada, diante de tanta beleza, perguntando-me quanto tempo o pintor levara para terminar aquele trabalho no teto abobadado da capela ou como ele havia chegado até lá sem se esborrachar no chão. Obviamente, Giovanni ouvira meus pensamentos e, desta vez, ao invés de rir de mim, optara por me responder com um sorriso compreensivo naquela boca que passara a ser o centro de minha vida. Enquanto seus lábios se moviam explicando-me, metodicamente, os detalhes de como as obras foram concebidas, meus olhos lascivos saboreavam cada parte daquele rosto, dos cabelos agora cortados, das costeletas aparadas e do seu longo e elegante pescoço coberto por um lenço branco em seda, sob um colete verde claro calmamente abotoado por mim após fazermos amor na manhã daquele dia. O dia que deveria ser o mais feliz de minha vida. Mas haveria outros...

***



Estava sério e compenetrado quando metera os braços em sua casaca em verde musgo antes de sairmos de casa. Excitada e feliz, mordiscava meus lábios enquanto minhas mãos alisavam o tecido com largos botões forrados na mesma cor da casaca. - "Quando voltar, meu amor, vc não me escapa", ameaçara-o, vendo-o enrubescer, mudo de expectação e eu me vi em seus olhos cheios d'água. Apertei suas mãos com as minhas e o beijei com suavidade e ternura e, naquele instante, ouvira a ingênua pergunta que ecoaria em minh'alma por séculos de dor.



- "O que seria de mim sem vc?"



Vivo, Giovanni. Vc estaria vivo.



***



Eu não sabia se chorava ou se continuava a gargalhar diante do altar, ensopada pelos grossos pingos da chuva que lavava a escadaria por onde subimos apressados. Meu exuberante vestido totalmente devastado! Giovanni não medira esforços para comprá-lo embora eu reclamasse de todo e qualquer dinheiro gasto em tolices.



- O vestido de noiva de minha esposa não é uma tolice, meu amor. - Declarou ele, recostado ao batente da porta de nosso quarto, abanando a cabeça lentamente, fitando-me com aquela expressão de desejo e júbilo, tudo ao mesmo tempo. Que homem! E só meu! Revirava os olhos ouvindo meus resmungos enquanto eu mesma admirava o que via refletido no espelho de meu armário em madeira de Nogueira, um mimo de sua mãe que sonhava com sua volta ao lar. Sem mim??? JAMAIS! - Gostou? - Perguntara, vacilante, arqueando a sobrancelha e me vira inspirar profundamente e expirar num sorriso.


Como não gostar daquela saia em godê, com rendas no corpete e nas mangas longas em um tom pastel e um acanhado decote??? Um caimento solto emprestava-me leveza e a touca cravejada de pérolas, cobriam meus cabelos soltos, agora totalmente encharcados como os dele. O abade lançara-nos um olhar desconfiado quando, enfim, nos unira para sempre, contrariado ao ouvir nossos risos estridentes misturados às badaladas dos sinos que diminuíam de intensidade à medida em que corríamos para bem longe da praça, das pessoas apressadas, das carruagens e lojas, e nos abrigávamos debaixo dos vinhedos, abraçados, corpos colados pela água da chuva santa que nos abençoou ali, naquele instante onde eu jurei fidelidade e lealdade ao homem da minha vida.



- Feliz, Sra. Salviatti?


- Como nunca em minha vida...- Respondera num murmúrio contra sua boca, sentindo o calor de seu hálito e seus beijos doces e entorpecentes como o vinho, em minhas têmporas, olhos, nariz, bochechas, experimentando-me, incitando-me, provocando-me. Sua língua separou minha boca  e suspirei, pois era exatamente daquilo que necessitava. Dele! Somente dele. O vestido, a capela, os afrescos, as obras de arte, a "Vernaccia di San Gimignano"...nada teria sentido sem ele e seu corpo pesado que agora pressionava o meu, fazendo-me acompanhar suas respirações arfantes enquanto ele percorria, com as mãos afoitas, a minha coxa, encontrando prazer em tocar-me com habilidade e gentileza em minha intimidade que ansiava por ele...ele e sempre ele.


- Juntos até que a morte nos separe? - Perguntara-me arquejante, as mãos apoiadas ao lado do meu corpo, seu torso recuado, seus olhos fixos nos meus, um sorriso misto de exaustão e seriedade, quase medo. Observava, enlevado, meu corpo arquear-se sobre o gramado viçoso, banhado pela luz da lua, tendo-o dentro de mim. Cravando minhas mãos famintas em seu cabelo curto, sorrindo, gemendo, chorando de felicidade, repetira.


- Juntos até que a morte nos separe.


Até que a morte nos separe...


E ela nos espreitava por entre as uvas inocentes.





***


Foram dias gloriosos de uma felicidade que eu jamais conseguiria exprimir em palavras. Estar ao seu lado, ser sua esposa, amante, amiga, companheira. Acordar em seus braços, ouvir seus resmungos matinais ou arquejar de espanto ante um lauto café da manhã em uma bandeja de prata (a única que possuíamos) e um lindo arranjo de Lavanda junto à xícara do leite  fumegante, derretiam o meu coração que era todo dele, embora ele não se sentisse seguro quanto ao meu amor, isolando-me de todos. Ao menos, eu pensei ser este o motivo. Deveria ser este o motivo. Eu seria eternamente grata ao Criador se fosse somente este o motivo. Mas, este não era o motivo para que Giovanni me mantivesse afastada dos olhos alheios. Eram outros...

***


Auxiliá-lo a preparar o material didático com o qual ele lecionava aos filhos dos mais abastados de nosso condado ou lavrar a terra sob o ameno sol da primavera em nossas costas era muito mais do que eu poderia desejar. Mais do que eu merecia ter. Estávamos sempre juntos e, juntos, passamos a frequentar com certa assiduidade e relutância, a sociedade. Nestes momentos, eu o via sempre alerta como se corrêssemos algum tipo de perigo iminente que somente existia em sua cabeça. Ele deveria saber que eu poderia lidar com aquela gente falsa que fingia gostar de mim, no entanto, apenas me toleravam, pois eu era a esposa do homem mais letrado que conheciam. Do Doutor, do Professor, do Alquimista a quem todos admiravam. Eu não era nada. Nada além de sua esposa. Uma esposa abusada, atrevida que fazia questão de demonstrar a todos, sob os olhos de aprovação de Giovanni, o que ele havia me ensinado. Enfim, o tal Latim servira-me para algo e, entre risinhos sarcásticos, declamava poesias na língua morta com o único propósito em exibir-me, esfregando nas faces perplexas dos tolos que eu não seria tão burra quanto parecia ser.  Ver-me entre os homens e mulheres, nos saraus ou nos bailes da nobreza que passara a ter Giovanni como seu pupilo, deixava-o ofegante de ciúmes, mas isso ele não o admitia.


- Tenho medo de sua inocência. Só isso. Enquanto dança, rodopia feito uma cigana nos salões...- Eu abanava minha cabeça com ferocidade, desalinhando meus cabelos vergastados pelo vento que uivava ao nosso redor. Estávamos no quintal de nossa casa, um vasto campo verdejante que se expandia até os limites da terra que findava num penhasco encantadoramente perigoso. - Eles não tiram aqueles olhos nojentos de vc. - Encarava-o, desafiando aquele olhar insólito. Adoraria ter certeza de que vira neles alguma fraqueza. Algo que me igualasse a ele. Algo como a raiva, a fúria. - Só vc não percebe o efeito que causa nos homens, Morgana! - Aumentara o tom de voz competindo com a ventania que, agora, circundava-nos como se quisesse presenciar o final daquela discussão. - Ou será que percebe e gosta disso???


- Não grite comigo! - Refreei, indignada, o ímpeto em dar-lhe um tapa em seu rosto. Ou dois talvez. No entanto, ele sofria. - Eu vou apenas para acompanhá-lo! Não tenho nenhuma intenção em cair nas graças daqueles vermes! - Como se houvessem me empurrado, agarrava-me à sua camisa semiaberta, o tórax visível, as narinas dilatadas. - Acha que sou boba? - Falara baixo com os dentes cerrados e um olhar sombrio. - Eu os conheço. Eu os toco e ouço seus pensamentos. O que vc faz somente com o poder de sua vontade eu o faço tocando as pessoas. Sinto o que sentem, o que fazem, o que pretendem fazer e posso te garantir, Giovanni Salviatti... - Minhas mãos tremiam, minha visão estava desfocada pelas lágrimas que queriam deslizar em minhas faces afogueadas enquanto o via ali, parado, como se duvidasse de minha honestidade. - Tenho nojo de todos ali! Repudio tudo o que são e o que escondem debaixo de suas vestes caras vindas do exterior. Mas vc tem o direito de duvidar. - Ele, arrependido, enlaçava-me em seus braços. Eu mergulhava a cabeça em seu peito, curvando minhas costas, procurando a proteção de um pai. Um pai...um pai... - Se duvida de mim, por que ainda não me expulsou de sua casa? - Sussurrei com a voz abafada por sua camisa, soluçando descontroladamente. - "Não responda. Não me deixe. Não responda."


- Nunca mais fale isso, entendeu??? - Olhara-o assustada com o tom desesperado em sua voz, as feições contraídas, as mãos frias em meus braços estirados ao longo do meu corpo. Estremecia somente em pensar que poderia perdê-lo e, se o perdesse, eu me perderia de mim mesma. Fitando meus olhos atentamente, dissera-me com aflição. - Nem por um minuto pense que duvido de vc! Nem por um minuto pense que vou te deixar. - Beijara o topo de minha cabeça, pousando as mãos em minha nuca, fazendo-me olhar para ele sem desviar seus olhos de mim um só momento. - Eu te amo, sua tola. Te amo tanto que dói! Te amo tanto que me machuca te ver cercada por eles. Se esquece que escuto o que pensam? - Fiz que não com a cabeça, os olhos baixos. - Erga os olhos e me veja. - Ordenou, agora, com doçura e a voz enrouquecia, sedutoramente. Deus...se ele soubesse o poder que possuía sobre mim, jamais temeria a traição.


A traição é diferente da lealdade e a lealdade  mora no coração dos puros, dos justos. Eu era indigna e ainda não o sabia. - Quero que  me olhe, Morgana. - Nossos olhos se encontravam, úmidos, súplices, apaixonados. - Sei que me ama, mas fico a ponto de explodir quando a vejo entre eles e, se não cultivasse a paz de espírito ou o autocontrole, teria partido um daqueles imbecis ao meio. - Sorria, envaidecida. Engolia o sorriso que parecia ter vida própria, pois voltara ao meu rosto. - Sim. Tenho ciúmes de vc. - Confidenciara. - Tenho raiva de vc quando se mostra a eles!!! Era isso que gostaria de ouvir??? - Gritava tentando superar o vento. - Pronto! Já ouviu, Morgana Salviatti - Seus cabelos molhados caíam-lhe sobre os olhos. Precisava de um novo corte. E somente eu os cortaria. Os nós de seus dedos estavam brancos em torno dos meus braços. Doíam, mas eu não gritei ou o impedira de liberar aqueles sentimentos que, pela primeira vez, vinham à tona. Agora meus braços estava erguidos, curvados, bem próximos ao seu rosto repleto de rancor, exasperado, enlouquecido. Sentira os primeiros pingos da chuva em minha costas, em meus cabelos. Meus olhos custavam a se manterem abertos sob as gotas que nos chicoteavam. Admirava-o, sorrindo debaixo do aguaceiro que nos deixava encharcados como...- No dia do nosso casamento! - Ele completara meus pensamentos.


- No dia mais feliz de minha vida, idiota!


- Morgana!


- Não grite! Não sou surda! - Ele gargalhou jogando a cabeça para trás. Eu o amava um pouco mais a cada gesto, a cada traço de sua personalidade ímpar. - Não quero mais!


- O quê??? - Eu não conseguia sequer abrir os olhos e se abrisse a boca novamente, certamente me afogaria. Um súbito puxão em minha mão e estávamos correndo em direção à varanda. Ele desapareceu de minha visão ainda embaçada e logo surgira com uma toalha, secando-me o rosto com extremos de carinho. - O que não quer mais? - Falara baixo, secando os fios de meu cabelo, desviando os olhos maliciosos de meus mamilos arrepiados.


- Não quero mais voltar àquele lugar...àquela gente. Quero ficar aqui, com vc. Só com vc. - Enlaçara-o pelo pescoço enterrando meu rosto sobre seu coração que batia aceleradamente. Inspirei sua fragrância. Beijei seu pescoço. - Não preciso de mais ninguém além de vc...amor.


- Eu acredito...- Apertara-me em seus braços, afagando minha cabeça como um pai afetuoso o faria a uma filha. Um pai...meu pai...- Também não desejo voltar ao convívio deles. Nada como estar aqui, em nosso lar, ao seu lado. - Seus braços agora envolviam minha cintura, suas mãos cruzavam-se sobre o meu ventre. Ele estava atrás de mim quando repousou o queixo em meu ombro e, juntos, observávamos o espetáculo da natureza bem diante de nós. As copas das árvores que se moviam num balé ritmado, os pingos hipnóticos da chuva sobre o telhado. As mãos dele em meu ventre...


- Giovanni! - Afastara-me, de chofre, fitando-o, atônita quando disparei. - Meu pai era um bom homem? Ele me amava? Eu...eu...não consigo me lembrar. - Ele ofegara por instantes e, antes de responder, parecia estar escolhendo palavras para me responder, pois seus olhos se distanciavam. - Ei, rapazinho! - Estalei os dedos à sua frente. - Vc também não se lembra??? - Rira de seus olhos reticentes, seu sorriso indecifrável. - Giovanni...fala!


- Era. - Balbuciou sem me olhar nos olhos. - Era um bom homem. Um bom pai.


- Melhor do que vc?


- Como?


- Leia meus pensamentos...- Arregalara os olhos para ele e abrira meu melhor sorriso. Ele cerrara os olhos, levando a mão ao peito.


- Não se atreva a morrer agora, queridinho! Seu filho precisa de vc!


- Não...não brinque com isso. - Gaguejou. Sua voz era grave e vacilante. Seus olhos encheram-se d'água. Seu corpo imóvel como uma estátua. - Vc...


- Vc! - Tomara suas mãos entre as minhas e as pousara em minha barriga. - Vc vai ser papai.


- Morgana...



Meu nome parecia um cântico sagrado nos lábios daquele homem por quem eu daria a minha vida se...
Morgana Milletto
Enviado por Morgana Milletto em 30/11/2019
Código do texto: T6807286
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Sobre a autora
Morgana Milletto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 50 anos
50 textos (417 leituras)
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Morgana Milletto