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LEO IV - TRATO - CAPÍTULO 8

                                CAPÍTULO VIII – TRATO
                                   
                        Leo estava arrumando suas coisas para sair do hospital, quando Alcântara entrou no quarto.
- Posso falar com você?
   Leo, de costas para a porta, apenas ouviu sua voz, mas sequer olhou para ele e ainda respondeu incisivo:
- Infelizmente eu não consigo tapar meus ouvidos como faço com meus olhos e minha boca. O senhor já está falando.
  Alcântara procurou ignorar aquela resposta malcriada e respirou fundo.
- Quero fazer um trato com você.
   Leo olhou para ele, medindo suas intenções, e perguntou:
- Trato? Que trato?
- Quero que você deixe minha filha e meu genro em paz...
  Leo sorriu, encostando-se na cama e cruzando os braços.
- A troco de quê?
- De não abrirmos inquérito contra você, devido ao que você fez contra meu genro, pouco antes do casamento dele com minha filha. Ninguém esqueceu aquilo, se você não sabe. Ainda posso te colocar na cadeia.
   Leo ficou olhando para ele em silêncio.
- E então, como ficamos?
- Não sei se o senhor já notou, doutor Alcântara, mas já há algum tempo eu não ligo para o que a polícia possa ou não fazer contra mim. Já fui preso mil vezes, com e sem motivo justo, mas sempre alguma coisa ou alguém me tira de lá. Isso quer dizer que eu não vou morrer numa cela, e o seu... genro tem contribuído muito pra isso não acontecer. O idiota, ou pra bancar o bonzinho ou por desencargo de consciência, sempre arruma um jeito de me tirar de lá. Acho que ele quer bancar meu... anjo da guarda.
- Apesar de tudo, ele ainda é seu amigo.
- Era! Ele me traiu, se casando com a mãe do meu filho. Se fosse meu amigo, teria resistido a toda essa pressão que meu pai e o senhor fizeram contra ele e não teria aceitado ficar com ela, sabendo que eu a amava e, pior ainda, sabendo que ela ia ter um filho meu! Ele é um covarde!
- Ele a salvou!
- De quem? De mim? Eu tentei mudar, pedi uma chance, não pedi? Por ela eu faria qualquer coisa! Até esquecer o ódio por meu pai e sair dessa cidade pra ser feliz com ela em qualquer lugar do mundo! Mas ninguém quis me ouvir. O senhor mesmo, que é considerado nessa cidade um homem tão bom, tão justo, nem o senhor quis me ouvir, e ainda teve a coragem de jogar sua filha grávida nos braços de um homem que ela não amava!
   Alcântara baixou os olhos, envergonhado.
- Eu amo a Gilda... e a perdi, mas ainda a respeito. É a única que eu respeito no meio desse bando de hipócritas que são todos vocês. Ela foi tão vítima quanto eu. E é a mãe do meu filho. Isso vocês nunca vão poder negar. Meu maior orgulho, doutor, é que o senhor tem correndo nas veias do seu neto, o meu sangue. O sangue de um depravado, de um irresponsável, de um pervertido! Que outros nomes simpáticos o senhor tem pra me definir, doutor? Não consigo lembrar todos eles... Ah! De um quase assassino, já que eu quase matei o seu... genro.
- Eu não quero mais acusá-lo de nada, Leo. Eu só quero...
- Eu sei muito bem o que o senhor quer. Quer se ver livre de mim, mas eu sinto muito, isso não vai acontecer. O Bruno tem meu sangue nas veias e isso vai estar sendo jogado na cara de vocês todo o tempo, sempre que olharem pra ele. O Haroldo é só um... estepe, um... objeto que deu nome de casada à Gilda. Meu filho vai estar sempre lembrando a vocês que eu existo. Vai lembrar também que vocês cometeram um crime em separar duas pessoas que queriam ser felizes juntas. O Haroldo nunca vai fazer a Gilda feliz por completo. Ela nunca vai ser mulher dele. Ela me ama e vai me amar pra sempre, como eu a ela.
   Leo parou de falar para refazer o fôlego, emocionado, e continuou:
- Não acho que eu estivesse certo quando fiz o que fiz com o Haroldo... mas não me arrependo. Ele pelo menos está vivo, casado com a Gilda e curtindo a felicidadezinha medíocre dele do lado dela... Eu já morri várias vezes e faz tempo... e passar mais dez anos na cadeia pra mim não significa nada. Faça o que o senhor quiser. Não vou fazer trato nenhum com o senhor e nem com ninguém. Me processe! Mas eu acho que nem o seu genro vai lhe dar razão. Ele sabe que eu estava certo quando fiz o que fiz com ele. Ele mereceu! Ele é um rato e devia ter morrido naquele dia. Mas eu vou ficar aguardando as intimações e vou ter muito que falar no tribunal que me julgar por lutar pelo meu filho e pela mulher que eu amo!
   Alcântara admirou-se da coragem do rapaz.
- Sabe... atrás de toda sua arrogância, de todo esse seu jeito bruto de ser, você tem muito caráter, rapaz. E muita coragem também. Talvez Samuel tenha feito mesmo tudo errado com você. Se minha Gilda gostou tanto assim de você, a ponto de se entregar e ter um filho seu... é porque você deve ter aí dentro desse poço de revolta alguma coisa muito boa. Minha filha nunca tinha me decepcionado antes... e acho que você ainda não foi o primeiro motivo pra ela fazer isso. Talvez nós tenhamos cometido mesmo um erro terrível...
   Leo continuou olhando firme para o médico.
- Mas agora é tarde, continuou Alcântara. – Ela é uma mulher casada agora e você tem que respeitar isso... pelo menos.
- Respeito a Gilda, mas isso não me obriga a respeitar mais ninguém.
- Ser vítima de tudo não lhe dá o direito de magoar as pessoas, Leo. Procure entender.
- Não! – Leo gritou, colocando as mãos nos ouvidos. – Não entendo nada! Vocês não fazem a mínima ideia do que eu tenho passado nesses últimos meses! É muito fácil dizer: esqueça Leo! É muito fácil querer passar uma borracha por cima de tudo e fingir que a vida continua e que está tudo bem, que não aconteceu nada! Aconteceu! Se aquela criança não faz nenhuma diferença pra vocês nessa história, pra mim faz! Eu sou o pai daquele menino!  Não vou cansar de gritar isso no ouvido de todos vocês, não vou! Eu sou o pai do Bruno! Não vou fingir que ele não existe. Ele nasceu de mim e da única coisa que me fez sentir vivo, que me fez sentir amado, importante! O amor da Gilda!
  Ele parou e passou a mão pelo rosto, transtornado, depois continuou, apoiando as duas mãos na cama:
- Não foi uma aventura... e eu não vou deixar isso passar em branco. Se eu não servi pra ser seu genro, doutor, vou ser sua maior dor de cabeça. Uma dor de cabeça que nenhuma aspirina vai curar... porque é a sua consciência que vai doer. E essa dor nada cura... nem o arrependimento... O perdão talvez... mas isso o senhor nunca vai ter de mim, nunca, nem que eu morra...
   Alcântara não pode dizer mais nada. Leo apanhou a jaqueta e passou por ele, saindo do quarto.
   Gilda estava lá fora e ele parou, olhando para ela. Não disse nada, apenas percorreu o rosto dela com os olhos e foi embora.
   O médico saiu também do quarto e olhou para a filha. Gilda tinha ouvido tudo e fitou o pai como a cobrar dele uma resposta.
- Sinto muito, filha.
   Ela permaneceu em silêncio. Deu as costas e foi embora.


                                 LEO IV – CAPÍTULO 8
                                          “TRATO”
                          OBRIGADA, SENHOR, POR TUDO!
                 PELA PIEDADE, PELO AMOR E PELAS BÊNÇÃOS!
                          CONTINUE NOS PROTEGENDO
                       COM SEU ESCUDO DE MISERICÓRDIA!
                                 BOA TARDE E OBRIGADA!
Velucy
Enviado por Velucy em 07/07/2020
Código do texto: T6998871
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Sobre a autora
Velucy
São Paulo - São Paulo - Brasil
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