METAMORFO (ESSE TAL DE ROCK “N” ENROW) —III—

XIII

Roque faz sua entrada em outra área da festa, fantasiado de um antigo palhaço da Tv: o Bozo. Ao lado dele está presente um ator, dissimulado no Coringa do filme homônimo, dirigido por Todd Phillips. A ação das pessoas envolvidas nos acontecimentos festivos não programados pelos organizadores do tríplice festejo, são uma metáfora menor daquele movimento popular organizado pelo Coringa contra a elite de Gotham City.

Roque/Metamorfo/Bozo, dirigindo-se aos presentes nas mesas próximas:

— Antes de mais nada, só lembrando, vocês sabem, sou o presidente da República, sou eu quem mandou. Nessa ocasião festiva não vamos falar de armas, por favor. Vamos esquecer da pó, pó, pólvora. Ave César, quase que não queria sair. Pegando um ursinho sobre a mesa ela aproxima-o de uma criança perguntando: “urso voa, urso voa, é claro que urso não voa”, desafiando o garoto, desafia uma resposta: “urso voa ou não voa”??? A criança responde, convicta: “urso não voa mesmo”. Bozo volta a pegar o ursinho, joga ele para o alto e o pega de volta. Fez isso várias vezes, sempre pegando de volta. Vocês veem, urso pode voar, sim, urso pode voar.

Entre em cena o Coringa, vestido de terno verde, com gravata amarela e lenço amarelo sobressaindo-se do bolso direito do paletó. Sempre sorrindo o Coringa afirma que aquele urso em mãos do Bozo não é comuna. Ele surrupia o brinquedo das mãos do Bozo enquanto fala com voz infantil:

— Sou urso mas não sou comunista, não sou comunista. O Coringa solta gargalhadas. A pintura no rosto acentua a intensidade dos risos. Bozo Metamorfo estende a mão esquerda em direção ao parceiro e toma a palavra:

— Sabem por que esse urso não é comunista??? Porque nosso país é defendido pelas FFAA que zelam pela democracia brasileira. Não fosse eu quem mando, e o país já estaria em mãos dos partidos vermelhos. Vocês compreendem isso??? Não podemos ultrapassar nosso teto de gastos, está na Constituição. Quem quer a flexibilização do teto de gastos e cobra do Senado aprovação é o Guedes. Ele diz que não, mas contra fatos não há argumentos. Não é verdade???

— Huuuuuhhuuu. Enquanto as vaias se repetiam, o Coringa ocupa outra vez a cena:

— Por que você não comprou as vacinas a tempo de salvar milhares de vida??? — Um dos convivas perguntou em voz alta. O Coringa entrou na conversa gargalhando e dizendo: “a cloroquina, cloroquina, é bem melhor do que vacinas. E mais barata. E as nossas FFAA podem fabricá-la. Vamos valorizar a indústria nacional, ora, ora. Ele vai falando enquanto distribui pequenas almofadas com coraçãozinhos desenhados nelas.

O Bozo Metamorfo volta a falar: “somos honestos, não roubamos nada, esses corações estavam amontoados lá numa sala, sem fazer absolutamente nada. Nós os trouxemos para vocês com a nossa simpatia. Isso nada tem a ver com campanha política, como querem os nossos inimigos, inimigos da democracia, dizer. O Coringa volta a aparecer dizendo:

— Todos aqui são uma simpatia, apontando para várias senhoras e senhoritas sentadas nas mesas ele repete: “uma simpatia, tia, tia, tia”, enquanto vai soltando gargalhadas. As almofadas com coraçãozinhos trazem também os dizeres: — “estamos casados há dois anos — 24 meses — 730 dias e noites — 17.620 hs — 1 milhão, 51 mil e 200 minutos”.

— Isto não é entendimento??? Ele mesmo responde: “é sim senhor”. — Isto não é amor??? É sim senhor. E continua a fazer perguntas aleatoriamente. Apontando para alguns convivas nas mesas, ele indaga: “é ou não é, seu Zezé”??? — É sim, é sim, está certo seu Crispin??? Todos vocês são casais, uns não muito jovens, mas todos bonitins. Abrindo os braços e rodopiando em torno de si mesmo, o Coringa de terno verde e grava amarela volta e rodopia às gargalhadas.

As dezenas de pessoas nas mesas olham interrogativas para as pantomimas do Bozo Metamorfo e do Coringa. Acham que a animação é mesmo uma parte divertida da festa. A plateia vai aceitando com naturalidade as mímicas e intrujices dos palhaços. O Coringa pega um casal de bonecos, noivo e noiva, que estava sobre uma das mesas, e começa a embalá-los entre os braços que balançam de um para outro lado, enquanto canta, afetuosa e melodiosamente:

— “Um passarinho me ensinou/uma canção feliz/e quando solitário estou/mais triste do que triste estou/recordo que ele me ensinou/uma canção que diz...”. Bozo Metamorfo começa a dançar em frente as mesas acompanhando os passos largos da dança do Coringa que está a embalar com doçura na voz que está a entoar: “...Eu levo a vida cantando/Hai li, Hai Lili e hai lô/Por isso sempre contente estou/O que passou passou/O mundo gira depressa/E nessas voltas eu vou/Cantando a canção tão feliz que diz/Hai li e hai li, Lili e hai lô. O Coringa continua a improvisar a música nos mesmos tons: Ô ôh, ôhôhôhôh.

XIV

A noiva homenageada de nome Liliana, se permitiu atrair pela encenação daqueles palhaços que, pensava ela, estavam contratados pelos organizadores do tríplice evento festivo. Ela, sob a influência da comoção de ocasião, não soube ao certo por que foi intensamente invadida e subjugada por uma intensa comoção que a conduziu à uma situação interior, talvez um insight de intensa tristeza. A canção lhe trouxe à consciência, a memória de um acontecimento familiar traumático que ela, até essa ocasião, não tinha valorizado. Ela se viu uma garotinha a sentar no colo do pai, atraída pelos bombons de chocolate que o progenitor estendia na mão em direção dela.

O passado infantil foi trazido até ela como se fosse uma epifania de inusitada intensidade. Como se estivesse sido conduzida num nano imperceptível de segundo, à realidade paralela que estava nela, mas que, até esse momento não havia se manifestado com tal relevância. De repente aquela lesão era um ferimento emocional determinante de tudo que ela estava comemorando. A violência e a agressão do ato que até o momento estivera numa outra dimensão de uma realidade abominável.

As sequelas daquela situação de sua infância foram tão enormemente impulsionadas para a profundidade do poço abissal do mais fundo tártaro de sua psicologia, que ela se sentiu como que abduzida para outra dimensão na qual já estivera, mas que de tão nefasta, aziaga e agourenta, jamais ela havia encarado de frente a frente consigo mesma. A impetuosidade daquela revelação provocara nela toda essa tristeza repentina. Não havia, realmente, nada por ser comemorado nessa festança de aparências. Era como alegria de carnaval que todos sabem, na 4ª feira volta a dureza da realidade.

Nela, Liliana, este impacto voltara com toda a força de uma epifania que, agora, ela sabia pertencer a, senão todas, à grande maioria de suas amigas. Todas elas se acovardaram no esconder o mais distante possível, acobertar, solapar, dissimular, camuflar um evento que, do ambiente PSI subconsciente, boicotava suas vidas no que tinham de mais substancial: as associações neurais que poderiam possibilitar uma vida mental, espiritual, intelectual e emocional saudável. Uma vida livre de um relógio biológico que sempre estava presente em todos os momentos de sua vida adulta que, por mais rica que fosse, seria sempre uma vida aprisionada pela presença de um trauma de efeitos devastadores.

As sequelas conduziam seus movimentos de dentro do sofrimento físico e emotivo que, por mais negado à memória consciente fossem, estariam sempre presentes em todos os momentos, e afetavam seus pensamentos e comportamento enquanto pessoa. Liliana estava sentada na borda de um canteiro de jardim. A pantomima dos clowns, a canção do filme “Lili” provocara sua imersão no tempo em que a doce, indefesa e inocente francesinha de dezesseis anos, órfã, viajara de sua cidadezinha para outra, na esperança de que um padeiro, amigo de seu finado pai, lhe conseguisse emprego. Mas, este também havia falecido. Lili ficou à mercê de um lojista que, vendo sua ingênua fragilidade, pessoal e social, era candidato ao cometimento de violências contra sua integridade física.

Lili é salva das garras sedutoras do lojista por Marc, dito O Magnífico, um mágico itinerante de um teatro mambembe de marionetes. Liliana agora via como uma espécie de band-aid a festividade da qual ela era uma das homenageadas. Tudo em sua vida subsequente ao trauma causado pelo sexo do pai excitando-se em sua bundinha de criança, fazendo com que ela mergulhasse no magnetismo de suas intenções mais nefastas, voltara e se presentificara, estando presente como estivera no passado, com a agravante de ter a percepção desse fato se acumulado em sua vida por todos esses anos em que se escondera dessa realidade.

As Bodas de Algodão que ora comemorava, revelaram que todas as suas amigas presentes, todas essas dezenas de convidadas, eram prisioneiras do Tempo. Do tempo e de eventos que ainda faziam parte de suas vidas presentes, ainda que acontecidas em uma vida que haviam relegado ao passado, mas que continuava presente em sua memória e em seus registros akáshicos. O membro do pai enrijecido nas bordas de sua pequena vagina, separado da penetração apenas pelo vestidinho a calcinha, a calça e a cueca dele.

A mãe, sentada a pouco mais de metro e meio de onde o estupro da menina vulnerável se efetivara: o homem atingira o orgasmo que lambuzara suas vestimentas e se infiltrara nas roupinhas dela. As realidades se misturavam, as ideias e pensamentos se entrelaçavam, os tempos passados, presente e até mesmo o tempo futuro se envolviam a intervir nessa múltipla realidade. A jovem Lili do filme de 1953 conhecera dois dos amigos de Marc, Paul Berthalet e Jacquot que trabalhavam com marionetes. Entre eles havia a intenção de protegê-la. Por isso Marc convenceu Corvier, gerente da lanchonete e restaurante do teatro de variedades, a dá-lhe um emprego de garçonete.

Liliana desenvolvera nesse meio tempo, uma empatia comovida com a Lili do filme. A festa da qual participava era uma espécie de reprodução do teatro de variedades nesse ambiente diferente dos cenários da história de Lili. Lili perde o trabalho de garçonete logo na primeira noite, por passar grande parte do tempo a fascinar-se com o show de Marc e de sua assistente Rosalie. A ingênua Lili do filme, após perder o emprego vai até Marc por quem se sente atraída, esperançosa de que ele a ajude outra vez.

Mas Marc, revelando-se arrogante e carente de princípios, sugere que ela volte ao contato com o dono da loja vizinha à padaria onde a encontrou pela primeira vez. Desprotegida, sem apoio, ela dispensa a bagagem e começa a subir uma escada com a ideia de cometer suicídio. Ela é salva por uma das marionetes que começa a falar com ela, uma marionete controlada por Paul que, ao ver o que Lili estava prestes a fazer, decide impedir que o pior aconteça. As demais marionetes começam a interagir através das diversificadas tonalidades de voz de Paul. Uma dessas vozes pede a Lili que participe dos shows.

XV

A memória de Liliana está convulsionada. Ela mistura a realidade da Lili do filme com sua própria vida. Ela também já havia tentado o suicídio. Com ela já haviam falado amigas suas que não passavam de marionetes, com uma voz que não era a delas, emitindo opiniões que mais pareciam estar sendo emitidas por fantasmas de seus antepassados. Ela olhava o cenário do Bozo e do Coringa abrindo uma brecha, um “buraco de verme” para outra dimensão que ela havia esquecido ter vivenciado. A Lili do filme, ela própria, atualizada, com as diferenças de tempo e espaço e, principalmente, com as conformidades, as similitudes, as hesitações e tristezas produzidas por suas realidades.

Liliana pensou nas semelhanças entre Paul e o marido. Paul havia sido dançarino anteriormente à IIª Grande Guerra. Voltou dela manco, escondia sua deficiência física atrás das cortinas no palco das marionetes. Seu comparsa nas “Bodas de Algodão” também se escondia atrás do casamento, das cortinas nos quartos de motéis com um amante do mesmo sexo. Todos faziam de conta ignorar os dramas por detrás de uma vida a dois que era a três, e em breve ela também embarcaria nos trâmites e labirintos da vida social que requisitava dela que também tivesse amantes.

A Lili do filme ficou agradecida pelo convite de Paul a falar através de suas marionetes. Nas apresentações dos shows vestia-se com simplicidade. Ela era uma adolescente simples antes do casamento, após casada imitava o se vestir com roupas da moda sugeridas pelas amigas. Estava se tornando uma pessoa despersonalizada pelas influências do grupo social ao qual passou a pertencer. Em sua ingenuidade, aceitava as amigas como se fossem personagens de um mundo real, quando agora via o mundo de fantoches, de bonecas androides, influenciadas pela conduta de personagens novelescas da TV.

Liliana, convizinha da Lili do filme, aprendeu a lidar com sua plateia e teve o reconhecimento das pessoas próximas. O marido tentava parecer-lhe o que não era, e tentava recuperar a imagem do namorado e do noivo, que não conseguiu manter enquanto parceiro dela no casamento. Apaixonara-se novamente por ela, mas não podia dela esconder a amargura de ser claudicante ou manco como Paul, em relação à Lili do filme. Filme e realidade se complementavam nela: essa a leitura que passou a fazer ao observar as pantomimas da dupla Coringa e Bozo.

Criou-se uma conexão desconexa entre pessoas da ficção e da realidade. Semelhante às personagens da poesia “Quadrilha” de Drummond, Paul amava um amante, mas supostamente amava Lili, que continuava apaixonada por Marc, que amava Rosalie, que amava Beltrano... Quantos corações partidos carentes da afeição que não poderia estar presente entre eles, separados por situações contingentes, inesperadas.

A contemplação do Coringa a embalar nos braços carinhosa e ao mesmo tempo ironicamente o casal de bonecos comemorativos de suas Bodas de Algodão, lhe angustiou profunda mente. A química pejorativa e desdenhosa entre todas as pessoas envolvidas com essa sua realidade de ficção, fez dela a Lili Leslie Caron personagem e atriz do filme indicada ao Oscar de melhor atriz. Mas, ela não era atriz, ou era??? Quem havia escrito o drama em que ela se encontrava??? Como poderia encontrar-se em meio a pessoas que não sabiam quem eram??? Como poderia tornar-se real nessa real idade de ficções???

XVI

Ela gostava dessa gente??? Essa gente gostava dela??? A canção reverbera no interior de sua mente, de seu coração, de seu corpo: “Eu levo a vida cantando/Hay Li, I hay Li, I hay lô/Por isso sempre contente estou/o que passou, passou/O mundo gira depressa/E nessas voltas eu vou/Cantando a canção tão feliz/Que diz/Hi Li I Hay li I haylô...

Liliana ficou por demais assustada com a quantidade de realidades que dentro dela se agitavam. Sua vida lhe parecia uma invenção de uma imaginação que não tinha como controlar. Percepções contraditórias, muitas das quais difíceis de compreender. Afastou-se como que a caminhar em câmera lenta até um lugar no mais interior do sítio. O luar de lua cheia iluminava a grama verde em redor. No céu límpido lucilavam estrelas. Suas mãos subiram por dentro do vestido branco. Ela acocora-se com um dos joelhos mais alto que o outro. Após alguns segundos volta a ficar em pé, dirigindo-se de volta ao aglomerado de mesas com convivas em comemoração.

Os palhaços não mais estavam no lugar do qual ela se afastara. Liliana perguntou-se: “quem seriam aquelas pessoas por detrás daquelas máscaras??? Quem havia preparado aquelas pantomimas”, com que objetivo??? Enquanto isso Roque Metamorfo havia mudado de forma e aparência. Exibia-se agora em outro ambiente da festa na persona do “Pato Donald Trump”.

XVII

Roque Metamorfo/Pato Donald Trump aproxima-se de um grupo de convidados sentados numa mesa com grande animação: — “Vocês bolivianos, disse ele, a América gosta e precisa de vocês”. — Um dos copeiros aproximando-se dele cochichou algo em seu ouvido. Logo a seguir, Roque/Trump voltou-se para os convivas e se desculpou:

— YES, yes, hann, vocês, yes, são brasileiros, hana, han, limpa a garganta e volta à fala: “não costumo me desculpar, afinal eu nunca erro. Ou quase nunca, claro (risos). Vou contar-lhes um segredo, roubaram-me a reeleição. Eu ganhei as eleições (muitos risos). É certo, mas quem ganha nem sempre leva. Vocês boliv.... Ahn, brasileiros não sabem, mas temos bases militares na lua. E não é de agora.

As pessoas divertiam-se com o Metamorfo/Trump, algumas até pareciam muito atentas ao que ele dizia. "O programa espacial mais intenso, vocês não vão acreditar, não é nem nunca foi o da Nasa. É um programa espacial que reúne as maiores fortunas do planeta em busca de minérios que todos sabem existir em outros orbes desse sistema solar. O programa espacial dos EUA tem em vista a colonização de outros lugares porque esse aqui, a Terra, em breve será devastada por uma grande catástrofe".

Nesse momento dois homens vestidos de preto acercaram-se dele e cochicharam algo em seu ouvido, um deles pegando-lhe pelo cotovelo direito. Roque/Pato Donald Trump fez cara de quem compreendeu a mensagem dos homens de preto e mudando logo o discurso disse: “nosso programa espacial está mais avançado que o de vocês (risos gerais). Corrigindo-se o Metamorfo/Trump, disse: vocês, quero dizer, da China. Voltando-se para olhar se era ou não observado pelos homens de preto, curvando-se para a frente, disse:

— Ets, astronautas, cientistas, — fazendo uma pausa continuou: todos trabalhamos juntos. Há milhares deles circulando nas ruas, praças e avenidas. Vocês não sabem, mas eles podem ser reconhecidos, basta vocês... — Nesse momento dois homens de preto aproximaram-se mais agressivamente. Eram de alta estatura e fortes. Pressionaram-no a sair de cena, forçando-o a distanciar-se do lugar, enquanto o Coringa hesitava em interferir na retirada do Metamorfo/Trump, mostrando-se temeroso em intervir.

Enquanto era conduzido meio que à força, Roque/Trump voltou-se para trás, já com os pés pisando na ponta dos dedos o chão, e voltou a falar ao grupo de pessoas que olhavam com atenção e surpresa ele ser carregado para fora da vista dos convivas: “eu ganhei as eleições, ganhei sim as eleições, me roubaram o mandato, Biden, aquele baixinho endiabrado... Precisam recontar outra vez os votos”. E insistiu: "precisam recontar mais outra vez os votos, até me elegerem".

As risadas foram gerais. Até crianças sorriam ao vê-lo afastar-se em mãos dos homens de pretos, pisando o chão na ponta dos dedos dos pés, dando passos no ar. O Coringa continuava a rodopiar em torno da cena. Os convivas ficaram a rir e a aplaudir, um deles se engasgou com um pedaço de peito de peru saindo da boca voltada para o chão. Uma senhora comentou ao ouvido do cara ao lado que parecia ser o marido: “organizaram muito bem a festa, tá divertida”.

— Deve ser o Marcelo Adnet e o Tom Cavalcante, disse em resposta à mulher o cônjuge que estava ao lado vendo a dupla de jograis afastar-se.

XVIII

Liliana volta a fazer parte do grupo de parentes, amigos e familiares que ocupam um grupo de mesas agrupadas. Ainda sob o efeito dos insights provocados pela memorização do evento “Lili”, ela está francamente distante do burburinho geral, como que ainda sob a influência de uma nuvem de pensares que a mantêm em contato com a dimensão de significados emocionais do filme da década de trinta. Ela observa as pessoas ao redor como se pertencessem a outro diferente universo de conteúdo, conceitos e noções que não os seus. Os seus sentidos formigavam em tempos diferentes. Havia lido recentemente o livro “Sapiens” do autor Yuval Noah, assim como uma terça parte de outro livro “Sapiens Reurbanisatus” sobre a consciência extrafísica. Consciência esta que reinsere a consciência humana no ambiente evolutivo de nascimentos não-doentios.

Ela ouvia as conversas, as vozes, os falares das pessoas em sua volta e não identificava nelas uma intenção associada à compreensão inteligente delas mesmas e do mundo que as cerca. Seus interesses pareciam demasiadamente fúteis, inúteis, estouvados, imprudentes. As muitas influências sob as quais permaneciam, concentravam suas emoções em tempos e espaços que não eram aquele tempo e espaço em que estava.

Não se confinavam, suas percepções, naquele baú social de indigentes mentais que lhes pareciam inconscientes da realidade da qual participavam. Resumiam-se partícipes orgulhosos de uma comunidade simiesca. As percepções dessas pessoas pareciam estar num passado muito, muito distante, suas finalidades eram simplesmente inconscientes. Foram vomitadas do interior biológico de uma criatura à qual denominavam mãe, que passaria a educá-la segundo padrões de pessoas que se hostilizavam entre si há muitos milênios de comportamentos hostis cristalizados.

Todas aquelas pessoas pareciam não ter participação na construção de artefatos atômicos destinados a destruir cidades, países, nações centenas, milhares de vezes. Pareciam não ter noção de que não havia, realmente, em verdade, nenhuma geração nova. Porque, mesmo se houvesse tal nova geração, ela estaria sob a influência das aparências, das inverdades, das ilusões, dos animais de rebanho que apenas corriam atrás da sobrevivência, siderados por uma cultura e civilização atentas ao entretenimento de celulares, jogos e programas de TV visão.

A cidade na qual nascera e à qual pertencia, estava povoada de gente condicionada pelos megaempreendimentos da mais recente revolução científico-tecnológica. Eram animais de rebanho estranhos para si mesmos e envaidecidos do estranhamento dos que conviviam com ela. Liliana era um nome, todos ali tinham um nome diferente, mas, intimamente eram tão iguais. Ela não queria ser mais um deles. Todos faziam parte do mesmo fenômeno: o naufrágio dos valores verificados em outras épocas e cidades tidas às vezes por ficcionais.

A memória da Lemúria, da Atlântida, das civilizações muito antepassadas. As populações que habitaram o Egito, a Babilônia, todas tão diferentes entre si e ao mesmo tempo basicamente semelhantes, tanto quanto os habitantes das metrópoles de agora. Um planeta de cidades mais hospitais, prisões e hospícios do que um planeta escola de aprendizagem. De que vale uma aprendizagem para a autodestruição??? Uma aprendizagem que permite um país tropical com mais de duzentos milhões de habitantes ser governado por um simpatizante aficionado por Hitler, Mussoline, com as mesmas manias de poder e grandeza autoritária de Stalin, Mao e irmãos Castro???

Liliana era Lili. Quantas Lilis e Lilianas estavam presentes à tríplice festa??? Quantas crianças estavam igualmente sujeitas aos mesmos pais, às mesmas influências maternas deletérias??? Quantas vezes esses seres dito “sapiens” construiriam mais uma vez uma cultura e civilização para que voltassem ser cobaias de experimentos civilizatórios da humanidade inconsciente, que não pode usar da mente e da memória mais anterior, por isso não para de repetir mais uma vez uma cultura e civilização sob a pressão satanizada da cultura e civilidade das trevas???

Liliana se imaginava poder ter estado presente na idade do cobre, do bronze, do ferro e agora do petróleo. Certamente teria sido suméria, fenícia, persa, minoica, cretense, espartana, grega e romana. Quem sabe talvez também fosse uma mulher análoga às mulheres nascidas nas civilizações incas e maias da Mesoamérica. A arma principal da mulher, em qualquer tempo, imagina ela, em todas essas esferas de influências diversas, é ser utilizada enquanto linha de montagem para parir novas gerações de meninos e meninas sujeitas às experiências de quem sabe, que civilização estelar alienígena. Em último recurso a arma da mulher sempre será render-se e abrir as pernas???

Em outro lugar da festividade, no palco onde se apresentavam bandas e artistas locais, uma dupla adolescente de cantoras imita Rita Lee e Pitty. Elas cantam ao som de uma banda a composição: “Esse Tal De Roque Enrow”. Liliana não sabe, mas desconfia que há um mistério perpassando, semelhável à uma nuvem que paira sobre todos os convivas.

Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 28/10/2021
Reeditado em 03/11/2021
Código do texto: T7373698
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