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Que o esforço pra lembrar...É vontade de esquecer

Feriado triste esse de finados, sempre chovendo, aquele céu cinzento de pouca coisa.
Vejo a chuva de finados (que se repete sistematicamente todos os anos, desde que eu me lembre) como um balde enorme das lágrimas choradas pelos que já partiram.

E nesse dia de muitas lágrimas, lembro da saudade absurda que sinto da minha vó, com aqueles olhinhos tranqüilos, os conselhos sempre necessários e os mimos intermináveis...



_ quer docinho de banana minha filha? sei que você adora... Vovó fez...

_ calça esse chinelo... juliaaaaannaaa.(esse juliana eu adorava ouvir, o tom só dela. ficava fingindo que não escutava só pra me chamar de novo. maldade inocente, eu sei, e ela também sabia).

_ toma própolis! Vai ficar doente...(espirrava por qualquer poeirinha e já vinha ela com aquele vidrinho mágico... rs )


Minha vó era um anjo travesso. Uma vó que dava boas broncas, que implicava com a minha borboleta nas costas (fazia aquela caretinha dela, toda vez que minha borboletinha escapava em uma blusa mais verão).
Falava palavrão... sim ela falava, mas saindo dela nunca era insulto. não.... era desabafo... era expressão livre de insatisfação.
Vinha com uns conselhos mirabolantes e exatos, que nunca entendia na hora, e até brigava com ela.
- Poxa vó... Também não é por ai! Ela sorria.Aquele risinho dela.Só dela.

E depois contrariando todas as leis da racionalidade ela acertava precisamente nas suas observações, nas suas opiniões. Coisa de cirurgião, coisa de artista.
Tinha o jeito cínico, um sarcasmo fino(ela odiava que eu dissesse isso,apostem.)que me fez uma pessoa melhor, saber se portar com "luvas de pelica" com quem não merece minha franqueza total e meu respeito. Ela sabia disso, Á se sabia.

Eu amava... a comidinha, o cantarolar na beira do fogão, o cheiro de erva doce,a meticulosidade,a sabedoria, a simplicidade desconcertante,os óculos grandões de corujinha,o riso solto,as manias intermináveis, o colo incomparável,as histórias tristes do passado turvo e o jeito dela de me fazer entender que um dia... Ao ‘seu tempo “, eu alcançaria” o topo da montanha “.

Vó. Te amo... em dias de chuva, em dias de sol.
não tenho mais seu colo, seus doces, seu bifinho esplêndido e nem herdei seu talento pra cortar coisas pequenininhas (não era só o amor o ‘q’ da questão vó... não era...). mas sei te sentir, nas flores, no vento,em uma gargalhada espontânea e nas coisas engraçadas. E é claro no meu cinismo de primeira que herdei e aprimorei com nossas conversas valiosíssimas e eternas.

Obrigada.
Hoje é dia de finados... dia de se chorar todas as rosas mal guardadas. mas sabe. o céu deveria soltar suas lágrimas sentidas todos os dias... só por ter tido você nessa terra por um tempo que quase quase foi pra sempre..


(texto escrito num surto criativo em homenagem ao meu anjo real, minha vó que partiu no princípio do ano,mas ainda parece que foi ontem...)
anajulia
Enviado por anajulia em 24/01/2007
Código do texto: T357098

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Sobre a autora
anajulia
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 36 anos
24 textos (1141 leituras)
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anajulia