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Pôr do sol

No silêncio do sol que se põe, nas entrelinhas de assuntos banais, discorro sobre as verdades que me rodeiam. Onde só é visto por quem deseja enxergar além das faces rubras. Ali, após a curva dos anseios, dois montes antes do abismo. Tenho um quê de pensamentos desoladores que me causam inquietação e um tanto de lágrimas suprimidas. Gosto de falar sobre o que habita o lado de dentro como se houvesse relva, montanhas e jardins a serem explorados. Acho que todos temos mundos inóspitos dentro do peito, cada qual com trejeitos e envergaduras e áreas sombrias individuais. Vezenquando me sinto um território das terras altas lutando para não ser dominado pela tropa inimiga. O que sempre me afugentou foi sentir-me mar, o temor do desconhecido, o infinito das águas. 

Há um sufoco pelo pranto engolido, como se a ausência de expurgo me roubasse o ar. Existe, também, a necessidade de guardar absolutamente todos os excessos para que não haja nada além do esperado. Diria bobagens sobre quem sente demais, mas vejo-me rodeada de tantos iguais, então quem não o faz? Penso que o amor esfriou, porém esfriamos todos nós. Nomeamos tanto afeto mal formado como sentir absoluto que desaprendemos a diferenciá-lo na multidão de carinhos, desejos e sonhos que passeiam em nossos cílios enquanto a noite esvazia as ruas. O mundo se contenta em estender paixões de seis meses porque teme encher-se de amor até se afogar. Não é passível de julgamento, somos todos covardes quando a incerteza cruza o portão. 

Eu já quis caminhos fáceis e afetos que cabem na ponta dos meus dedos sem remendos, mas no fim da semana nunca me bastou perder o fôlego apenas entre filmografias antigas. Passei os últimos quatro dias sendo chamada de romântica por gostar de luzes coloridas em prédios de sacadas largas e livros cujo final feliz era imprescindível - de amarga já me basta a rotina, foi minha resposta final. Me foi dito que sinto certo desagrado por pessoas, a verdade é que ando exausta do excesso ilusório de quem mais rotula do que sente. Pouquíssimos são capazes de me tocar, mesmo superficialmente - talvez seja o corpo cansado de tanto rebuliço por tão pouco. Certa vez me disseram que sempre esperamos alguma coisa, penso que tudo bem. Vezenquando as coisas correm do lado contrário enquanto a gente teima no ponto do equívoco, e mais uma vez, tudo bem. Ninguém aprende a sorrir para o milagre do céu sem um tanto de cicatrizes e madrugadas insones.

Desejei também não mais sentir. O peito fadigado de doer, a mente enevoada de pesar. Então recordo que do outro lado há quem aqueça o peito e me faça querer crer que vidas anteriores existam, só porque seria bonito tê-lo como par numa valsa qualquer da moda. Sou andarilha de caminhos opostos. Ora tristes, ora esperançosos. Creio que não saberia ser diferente mesmo se quisesse. Devaneio sobre saber doer para saborear cada gotícula de felicidade quando chover no jardim - eu realmente gosto muito de me ver como um campo aberto, perdoe-me -, e assim de pouquinho em pouquinho me bastar. Ver florescer mais uma vez a primavera do peito. E amar uma vez mais. Só mais um pouquinho, só até me transbordar.

Lemos em:
(Aos que gritam em silêncio)
Lemos castro
Enviado por Lemos castro em 12/01/2018
Código do texto: T6224016
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Lemos castro
São Miguel do Guaporé - Rondônia - Brasil, 33 anos
9 textos (158 leituras)
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