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Universo Particular

Ainda estou um bocado triste para pensar em retomar tudo.
 
         O muito chato da morte é o seguinte... Cada um de nós tem uma maneira única de ver, sentir, perceber e pensar as coisas e o mundo. E, como tudo que podemos saber sobre o mundo necessariamente chega até nós por meio de um - ou mais - dos nossos 5 sentidos (visão, audição, paladar, olfato e tato), cada pessoa necessariamente irá ter uma visão de mundo completamente exclusiva. Isso faz com que cada um de nós tenha um universo interior muito particular. Ele é construído através de uma experiência coletiva - o mundo como ele é - que nos chega por meios únicos - nossos sentidos, sentimentos e experiências anteriores. Então, quando uma pessoa morre, morre com ela todo um universo. Um universo interior que não poderá nunca mais ser restituído. Morre uma forma particular de enxergar o mundo. O que fica é apenas aquilo que conseguimos passar para as outras pessoas - os que ainda estão vivos - da nossa visão de universo. O máximo que cada um de nós consegue, no fim das contas, é deixar um espectro, um reflexo, um holograma, uma impressão vaga daquilo que um dia foi um universo. Algo como o perfume que fica de uma flor já murcha, ou a guimba de um cigarro no chão. Já não é mais flor nem cigarro. É o fantasma de uma flor, o esqueleto de um cigarro...
         No fim de tudo, só temos uns aos outros – por que, quando a nossa existência acabar, tudo que irá sobrar será aquilo que dissemos, fizemos e representamos para as outras pessoas.
         Um universo muito bonito e rico morreu, e por ele eu choro. Eu amei, amo, amarei sempre esse universo e, enquanto eu e meu mundo particular existirmos, o universo tão amado existirá também.
 
         * Passei mais de duas semanas desejando um tempo bom, com sol e sem frio - chega de frio! Na quinta-feira, dia 23 de Agosto, quando um universo muito importante deixou de existir, me deixando apenas com seu reflexo, o sol começou a brilhar. Ainda hoje, está calor. Oscar Wilde uma vez escreveu: "Quando os deuses querem verdadeiramente punir um homem, eles realizam todos os seus desejos". Nunca essa frase me pareceu tão verdadeira e tão cruel. Ainda não sei se o sol que brilha tanto deveria ser um pálido e frio consolo para o pesar ou uma zombaria mórbida da dor que me come por dentro.
Lorrayne Renho
Enviado por Lorrayne Renho em 10/09/2007
Reeditado em 10/09/2007
Código do texto: T646426

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Sobre a autora
Lorrayne Renho
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 32 anos
28 textos (991 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/17 23:14)
Lorrayne Renho