Aos Espíritos Livres - Da Falta de Sentido da Vida - Capítulo 1

1 - O Sentido da Vida

Através da crença inventamos um sentido para o universo, por consequência, é através dela que desvalorizamos o mundo - falta a força transfiguradora de valores para criar novos sentidos.

Milhares de anos sob o império de um só sentido embotou os poderes artísticos da vida. Mas isso é intermediário e já um avanço, ainda que seja rumo ao abismo: nenhum valor é melhor que o valor que obrava aí - o sentido cristão.

2 - A Utopia da Razão

É com a modernidade que nasce o sonho utópico do ser humano de curar a ferida da existência e limpá-la daquele fatalismo que regou de sangue e crueldade a história. O homem sonhou com um futuro sem sofrimento, livre das contradições que a vida impõe, um mundo que seria corrigido pelas mãos da ciência e da religião. Esse entusiasmo, como podemos perceber, acabou séculos depois. Quem muito busca e não encontra acaba por se cansar.

Como disse Renato Russo: "o futuro não é mais como era antigamente"

3 - Contradição

Se o mundo hoje nos parece sem sentido é devido a falta do sentido outrora disseram que existia. Conviver com essa falta, esse é o nosso destino, espíritos livres. Uma missão nada agradável não poder valorizar aquilo que sabemos e ter o sentimento em contradição com o conhecimento.

4 - Outrora, em tempos primitivos, tempos que ainda podem voltar, a vida se justificativa pela sua própria existência; foi a intromissão de uma interpretação que fecundou nas almas o sentimento de uma razão de ser da vida, agora sentimos que falta algo, que algum sentido oculto se esconde por trás das coisas, uma verdade, como querem o cientistas, um propósito, como querem os religiosos; que a vida tem uma razão de ser, e caso não encontramos essa razão sentimos pesar nisso.

A boa notícia é que sabemos que a vida não é o problema, a má notícia é que nos falta força para crer nisso...

5 - A Crença na Ausência de Fins

Para homens animados ao extremo pela vontade de verdade, que emanciparam-se dos costumes e crenças herdadas pela tradição, o sentimento da falta daqueles valores torna-se um companheiro de longos anos, por muito tempo não se sabe para onde ir, desaparecem todas as finalidades, mas continua-se agindo através da crença na ausência de fins. É extremamente difícil para o inicidado perceber que a "ausência de fim em si" seja o fundamento da sua crença. O mundo não é sem sentido, há infinitos sentidos, cada perspectiva encerra uma avaliação de mundo.

6 - Aos ateus: - A falta de sentido é, também, um sentido...

7 - Tudo quando sabemos é provisório e relativamente certo. É compreensível que o pensador ainda tratando-se da loucura de milênios sinta-se desanimado e fique inebriado em algum canto de si mesmo, paralisado por alguma convicção. É necessário purificar-se da nostalgia da "verdade".

9 - O erro é a condição para se fazer ciência e religião. Os maiores avanços se deram na correção dos erros. Não a verdade, mas a inverdade é o motor da inteligência. Só o impulso é dissimulado em direção à " verdade". Compreendem? Estamos diante do infinito...

Nesta perspectiva não devemos honrar as religiões e todo o passado humano com seus erros e crueldade? Despertamos em meio a este sonho não com a missão de apontar a ignorância dos antepassados ou que agora estamos em melhores condições de saber o que é o verdadeiro mundo, e sim para fazer o sonho durar...

10 - "Só onde incidem os raios do mito é que a vida dos gregos resplandece; fora isso, é sombria" - esta frase é de Nietzsche.

Quanto mais o homem torna-se realista, tanto mais pálido se torna seu aspecto. É assim que o jovem aspirante em filosofia enxerga um resplendor áureo naqueles tempos em que os filósofos gregos, emancipados do pensamento mítico, entusiasmados pela novidade, acreditam estar em posse do conhecimento absoluto. Isso se dá porque estão muito acima do sentido realista daqueles filósofos. O mito e o filósofo morreram, legamos uma vida anêmica - tornamo-nos realistas. Isso não significa que tenhamos de nos submeter, nós que vemos no realismo uma forma de decadência e rebaixamento do sentimento vital. Devemos recuar, diminuir o passo, voltar no tempo; diferente dos artistas que recuam em busca de um lar, nós, anfíbios do conhecimento, recuamos para aprender como pensavam os antigos, para antever o futuro, como quem recuando para tomar espaço lança-se a um só salto em terras jamais vistas - auroras que ainda não brilharam...

Fiódor
Enviado por Fiódor em 15/09/2021
Reeditado em 15/09/2021
Código do texto: T7342792
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2021. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.