Malévola

Eu jogo a linha e fico observando o bicho se debater. Antes que alguém mande me envenenar, vou tentando aparar as arestas. E não são poucas. Mas sabe, gosto de assistir à tortura, o tormento. De o ver rosnando como um urso que acaba de acordar da sua hibernação.

Geralmente, não costumo ter piedade, não costumo ser boazinha. Aliás, boas garotas são más. Sou daquela de cultivar o velho inimigo, de o cutucar para não esquecer que continuo viva. Sou o tipo de mulher que, quando meus pés tocam o chão, a cada manhã, o diabo se agita e diz – Oh, droga! Ela acordou. Não coloco a mão no fogo por ninguém, se morreu envenenado, morreu. Não espere gastar minhas preciosas lágrimas e muito menos, que eu o vá encontrar suicidando com um punhal. Até posso ser uma farsa, afinal todos somos. No fundo, todo mundo vive querendo vender seu peixe. E se for falar em dignidade, por favor, somos dois pontos podres na imensidão de restos contaminados. Mas não vou entrar em detalhes, afinal, como disse Margaret Thatcher, “não quero dar e ele o oxigênio da publicidade”.

Então, sou malévola por natureza, uma criaturinha mélica no primeiro contato, mas amarulento a partir de então. Todavia, eu não sou só coisas ruins, curto umas coisas boas, mas depende do dia e do meu depreciado humor, a mercê da minha bipolaridade.

Lemos ACR
Enviado por Lemos ACR em 23/06/2023
Código do texto: T7820301
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