Sol Nascente

I

Muito já falei sobre a solidão. Quero agora falar sobre o amigo, o amor e a tristeza.

Engana-se quem diz que o amor é alegria. Amar é experimentar a Grande Tristeza. Amar fora destas considerações é pura ingenuidade. E não tendes mais direito à ingenuidade. Porém, não vos enganeis quando vos falo da tristeza. Que vossa tristeza jamais seja sofrimento. A tristeza de que vos falo é o crepúsculo, é a chuva sutil caindo quase ao amanhecer enquanto estais dormindo, é a formação das nuvens no céu, é a lua radiante refletida nas águas plácidas do mar, é um leão dormindo solitário na savana, é uma floresta após a chuva, é o vento que sopra no silêncio da uma alta montanha, é um batalhão de formigas marchando enquanto a tempestade se aproxima, e tudo isso ao som de Vivaldi! Que vossa tristeza produza acima de tudo, poesia! Acaso já vistes algum poeta feliz? Os poetas são os que mais amam, e por conseguinte, são os mais tristes. Somente no grande oceano de tristeza que há em vossos corações é que o amor poderá iluminar. Somente na tristeza podereis reconhecer a felicidade. Que possais pensar em vossa tristeza e dar uma grande risada. Ontem, enquanto anoitecia, solitário num campo de trigo, muito me parecia com um espantalho tristonho e sombrio. Apenas os corvos vinham ouvir minhas lamúrias. E como eram compreensivos! O sinistro crocitar deles fazia com que me sentisse ainda mais triste. A felicidade se aproximou então de mim como um palhaço bonito e colorido. E a noite rapidamente se encheu de estrelas. Um palhaço que se movia, que cantava e dançava. E de repente, minha própria tristeza cantava e dançava. Ouvi um rouxinol cantar tristemente e só o que se passou em meu coração foi a certeza do amor. Que vossa tristeza seja o arauto da felicidade. Seja o fim do dia e prenúncio de outro. Que vossa tristeza seja a meia-noite! Vossa tristeza irá parir a felicidade. Já pensastes assim? Já chamastes vossa tristeza pelo nome? Ou ainda sentis falta do espantalho sombrio e tristonho? Quando olhais por vossa janela senti-vos adoecidos com a visão do inverno? Então não olhais na direção em que o sol nasce? Ah! Eu entendo por demais sobre a tristeza, o suficiente para saber que esta dama encapuzada e espectral, quando traz nas mãos esta espada chamada Depressão, ela vem para vos matar. E será no silêncio da madrugada. Olhai então na direção em que o sol nasce!

II

Não fostes para o deserto enterrar todos vossos tesouros? Não fostes para o deserto procurar a pobreza? Para serdes tentado? Pois o que trareis de volta do deserto será o amigo. Não estáveis perdidos numa floresta escura e enquanto tateáveis, vossa mão encontrou outra e de mãos dadas saíram da floresta. Essa mão era do amigo. Quando estáveis pescando, chegou às vossas redes um náufrago. Este náufrago é o amigo. Há também aquele inimigo contra quem vos batestes tantas vezes, sem contudo vencerdes ou serdes vencidos, então tornaram-se amigos. O amigo também é sol que nasce. O amigo também é trazido com o nascer do sol. E enquanto o sol se põe, estará vosso amigo acendendo a fogueira e preparando o carneiro assado. Por isso, olhai na direção em que o sol nasce.

Alhosal
Enviado por Alhosal em 02/01/2008
Reeditado em 14/10/2008
Código do texto: T800188
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