UM SALTO NO ESCURO
(A falsa paz ditatorial)

 

Mãos para trás,
pulsos apertados em algemas de gesso.
Frio estomacal, qual neófito paraquedista.

Impelido sem oferecer resistência,
flutuei no ar.
Torturante giro na escureza das trevas.

Enfim, sós ! 

Eu, lívido, em descenso vertical, 
e o meu algoz, em nublado plano horizontal.

Formaram uma cruz nossas coordenadas.

Visões de mundo desencontradas.

Ninguém ouviu meus derradeiros gritos,
dispersos no silêncio do infinito:

"Liberdade,  liberdade ! ". . .
“Verdade ou Morte ! ". . .

 

Morte ? ! . . .
Indolência, languidez, talvez . . .
Corpo e alma na última queda em vida.

Foi o meu pensar no ligeiro instante
antes do mergulhar profundo
no ondeado e gélido mar bravio.

A escuridão das águas,
a mesma do noturno céu nublado e
dos pensares militares, subordinados.

Imaginei-me sobrenadando
em  lágrimas derramadas
por tantas mães e irmãos em esperas vãs.

 

Por certo, meu corpo leve a uma peso atado,
não ousou vaguear

nas vagas de um mar revolto.


 .  .  .  Fato consumado !  .  .  .


Virei marisco,
que ainda medra e agoniza
em meio à rebentação das ondas
e à resistência da pedra:


vítima do eterno embate ideológico
no vaivém de forças antagônicas.
 


(Fernando Aquino Freire)

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Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 31/03/2023
Reeditado em 02/04/2023
Código do texto: T7753563
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