A DANTESCA VIGÍLIA INTANGÍVEL

Há uma nuvem de sombra, de penumbra

Acompanhando e norteando os nossos passos:

Ela nos entuba a mente,

Ministrando-nos latentes doses cavalares

Da sua cara ordem ideal, formidável:

Onipotente, onipresente, sodômica, noturna

E opressivamente solar, diáfana, diurna,

Soturna, elegíaca, sepulcral, gótica,

Fimósica, femural, tumoral, plúmbea!

Há uma nuvem de sombra, de penumbra

Acompanhando e norteando os nossos passos:

Ela esventra e trucida

Qualquer célula que a enxergue,

Em sua forma legítima,

E faça os pensamentos

Lutarem pela perpétua

Soberania da sua vida ignotamente augusta:

Sim, esta, guarda a via proba, segura

Qual nos leva ao píncaro nirvânico da mente mais ígnea, lúcida

Cuja luz descerra o caminho para o sol da perspicaz ventania

Que é o opalítico céu da sabedoria cor de Ametista!

Há uma nuvem de sombra, de penumbra

Acompanhando e norteando os nossos passos:

Ela nos nutre, nos edifica

Uma ventura de anestésica servidão

Ás Pátrias que estupram e silenciam

A eloquente sinfonia onírica da estamental Simetria!

Há uma nuvem de sombra, de penumbra

Acompanhando e norteando os nossos passos:

Ela provoca a letargia vitalícia

Do sangue da Filosofia,

Corrente em nossas veias políticas

E anuncia o óbito

Da manancial dos autônomos sensos,

Compondo-lhe uma sarcástica,

Humilhante elegia, vil preito, música ferina:

Erudita baixaria! Baixaria! Baixaria!

Há uma nuvem de sombra, de penumbra

Dentro do templo do nosso crepúsculo:

Ela urina, defeca e dá gargalhadas

Sobre o nosso ideológico túmulo.

Há uma nuvem de sombra, de penumbra

Que esgarça, flagela, molesta, domina,

Insulta e, sádica, nos emprenha o mundo:

Sujeitando-nos á sua pérfida e sicária cria de sanguessugas.

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA