Sonhos marmóreos e a verdade

SONHOS MARMÓREOS E A VERDADE

Sentado na lápide de um sepulcro,

embalado por marmóreos sonhos infantis

ante uma vida que julgava interminável,

até pensei que um destino esplendoroso,

apesar da fome, companheira inseparável,

rasgando o estômago num processo doloroso,

pudesse vir com a herança que não tinha,

de um passado mórbido e implacável,

a ressuscitar na alforria juvenil,

toda angústia de um peito abominável

em que a verdade sorrateira se avizinha

para provar que sendo um objeto com aresta,

estou ferindo inocente a sociedade

por querer participar da vida, essa festa,

que todos têm e almejam com ansiedade,

onde o futuro é somente quem atesta

se fui, diante do escrito por meu passado,

um alfarrábio criminoso e irresponsável,

por ter nascido de um estupro delinqüente,

ou se agora na verdade do presente

sou alguém, como ninguém, que não imundo

aqui na vida, essa herança Onipotente,

como são todos objetos deste mundo.

Em pé, ao lado da lápide de um sepulcro,

sentado na verdade de um adulto

embalo nos meus sonhos de saudade,

junto da fome que ainda sem indulto,

persiste nas lembranças do passado

para entender porque mantendo a lealdade,

agora tenho um coração abandonado

dentro do peito repleto de ilusões,

já no ocaso merencório do destino,

revendo a vida, oferece mil perdões

a tantos quanto lhe induziram ao desatino

ou até julgaram a aparência com maldade,

ante o semblante carrancudo e sofredor

que ainda busca na beleza do presente

colher nos ramos da incerteza o seu amor

e poder cantar, chorar, gritar, também sou gente.

Agora me banhando no futuro,

aonde as águas cristalinas não escondem meu passado,

revivo com certeza as emoções

sentidas lado a lado com as paixões

ciente de que o peito está seguro

convicto de que a solidão,

será a companheira como a fome

doída qual o injúrio das mentiras,

rasgando as mãos de quem as tome

para julgar ou entender um cidadão.

Assim a despedida é mais serena,

a noite se completa em escuridão,

a brisa pelo vale é mais amena

e a lua não renova e sim se esconde.

Os sonhos, as saudades e as lembranças

prescrevem como angústias de crianças,

deixadas sobre a lápide marmórea,

sepulcro inexorável da verdade,

que não refuta o seu filho inconseqüente,

por ter acompanhado a sua história

iniciada num estupro delinqüente.