REFLEXÕES DE AGENOR PEREIRA

Quando ia para o sitio, em Julio Mesquita, me encontrava com ele. O velho Agenor, ou Sr Pereira como era chamado. Naquelas noites quentes, nossas cadeiras eram troncos de madeira, colocados na grama em frente ao barracão com teto de zinco, onde se guardava a tralha da alimaria. Mostro aqui um pouco da nossa conversa.

-Para ser feliz você não se pode guardar nem raiva, nem dinheiro, dizia-me o velho Agenor. O que queria me dizer que, nesta vida, talvez devessemos, apenas cultivar o amor.

Ali observando a linha inconclusa do horizonte, no claro da lua, púnhamo-nos a contemplar o universo sob os goles da cachaça e nacos da carne esfumaçada. Eu fumando um charuto que só fumava nestas ocasiões, um espécie de portal para meditação e Agenor com seu cigarro de palha, semre limpando a garganta, com suas expressões simples e profundas. Minhas dúvidas e inquietações se queimavam nestas horas.

Agora bate-me uma saudade de pessoas simples como Agenor, que tinham uma enorme filosofia dentro deles e que pareciam compreender melhor o mundo.

A vida, repetia Agenor, nós não sabemos, mas há uma razão. Embora não aceitemos, há uma razão!

Não se preocupe porque o tempo apaga tudo, só não apaga os momentos marcantes, porque neles estampamos a nossa vida em nossa alma.

Agenor também dizia por outras palavras, que a felicidade não dura, porque depende da nossa capacidade de gerar ilusões e comprá-las. Se não compramos nossas próprias ilusões jamais poderemos ser felizes! Tudo é uma grande ilusão, repetia.

O mal são os desejos que nos queimam. São eles que nos matam!

Hoje, só, neste final de tarde frio, vem uma aragem gelar o meu rosto, como suas mãos frias. Penso comigo que se me entendo com o vento, então posso certamente, entender a vida e tudo que me cerca. Agenor, se aqui estivesse diria: A resposta para a vida é uma só: Deixe-a seguir não a siga!

A noite calma vem e me põe reflexivo como um pobre diabo. Não tenho paz, pois vejo há muito, os sinais emblemáticos que se adentram no corredor dos escuros.

Na verdade, eu já me adentrei a estes corredores de onde não se volta, a caminho de ser pó. Concluo, meio sem esperanças, nem olhar para trás e que a vida, na verdade, vale cada centavo que desfrutamos, embora, penso, que ela é um experimento ainda em desenvolvimento e que ainda não deu muito certo.

Meus pensamentos se esvaem, sem que eu saiba para onde, contudo, encaro a ideia da morte sem alarde. Quando vier, que traga então as chaves das algemas que prende esta alma, para que esta, liberta, siga sua jornada a campos vastos, enigmáticos e talvez ainda mais desafiadores!

Soube a pouco que Agenor faleceu em Novembro do ano passado e resolvi escrever esta cronica em sua homenagem. Lemro-me do que Agenor me disse um dia sobre a morte:

Não precisa teme-la, ela é delicada como as mãos de uma mãe, limpando o rosto do seu bebê. Que assim tenha sido Agenor!

Queria continuar escrevendo, mas uma lágrima escapuliu aqui, da represa dos olhos. Outras empilhadas aguardam sua vez! e a emoção levou as palavras embora de vez. Adeus Agenor! Que Deus o tenha!

Celio Govedice
Enviado por Celio Govedice em 27/11/2016
Reeditado em 05/07/2022
Código do texto: T5836551
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