O redesenhar das tatuagens do náufrago

A ilha é sua cela

O mar que a rodeia é a grade

A maior punição é estar longe

Das coisas que originaram

As imagens gravadas em sua pele

Seja na origem da tinta

Ou na origem do desenho

Sem escutar palavras familiares

Longe dos rostos conhecidos

Fora do alcance dos lugares queridos

Impossibilitado de reviver preciosos momentos

Você os vê, resquícios em sua pele

Carregando as memórias em carne viva

Para sua observação e das outras pessoas

Ausência de um norte, não há vento

Não há mapa, não há um propósito

Em forma de tesouro para procurar

Pois seu tesouro fora afastado de ti

Se alia às pessoas, em relação de protocooperação

Elas são lanternas para navegar nas escuridões mais densas

Presentes nos mais ensolarados e quentes dias

Para cooperar, é preciso abandonar

O não do seu vocabulário

O menor sinal, e a suposta frágil aliança

É sujeita à ameaça

De afiada linha de corte

Eles se atrevem

A desenhar por cima

Dos seus desenhos gravados

Em pele

As orações que deveria rezar

Os deuses que deveria adorar

As divindades que deveria reconhecer

Todas elas cobrem e substituem

Os sons e as imagens

Que constituem o seu eu

A ânsia pela sobrevivência

Tirou-lhe o precioso direito da memória

Não há nada para lembrar, revisitar

Reconhecer e nem ao menos

Recriar

Olhando para ti

Não te reconheces mais

És apenas receptáculo

Para o útil e urgente

Porém não para o importante

E memorável

O valioso, agora oculto

Está longe de ser

Recuperável

A cada dia, esquecendo

Da pessoa que você é

Se tornando a pessoa

Que o outro quer

Que você seja

Caio Lebal Peixoto (Poeta da Areia)
Enviado por Caio Lebal Peixoto (Poeta da Areia) em 11/07/2023
Código do texto: T7834715
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