FILOSÓPIO
 
penso que existo
e tento dar a isso
algum sentido
 
enquanto a Terra se move
e me carrega consigo
- inerte, sem norte –
giro ao som do infinito
profiro o mantra OM
e sigo para lugar algum
 
nenhuma pergunta terá definitiva resposta;
se Deus rola os dados
sempre ganha a aposta
e nem um pouco importa
se você gosta ou desgosta:
tudo é o que é
e impressões são tudo o que nos resta
 
flor de lótus
a posição última dos corpos siderais
as vagas vêm e vão
em ondas abissais
e tudo me habita
e tudo me incita
até não poder mais
 
em algum lugar
acima do meu pescoço
tudo se confunde e se iguala:
sonhos, passado, desejos,
presente, fantasia, memória
e imaginação,
realidade e ficção
perdem seus limites
e meus referenciais
se anulam em total insensatez
 
tudo passa, tudo passa, tudo passa
mas, que merda!
e para onde vai?
para onde vamos?
e o que fizemos
ou deixamos de fazer
que diferença faz?
temos a consciência de existirmos:
só isso a nos diferenciar dos animais
e acreditamos que somos importantes!
apenas um entre bilhões de outros
entre bilhões de sóis
e não se sabe quantas galáxias
 
humanos, ridículos, limitados
deixando-nos morrer de fome,
doentes, nas guerras
e ainda assim, achando-nos imortais
 
os paraísos estão no além
e aqui, e agora
somos todos reféns
de seres invisíveis
de idéias incompletas
aforismos, axiomas,
dogmas, suposições
 
certa, apenas, a nossa morte
ponto final de uma história repetida:
nascer, crescer, reproduzir,
morrer e, ainda, crer na vida
 
em tudo isso, não há sentido
assim penso
assim existo
por isso vou de encontro
ao mármore esculpido
e me redimo
lavo o rosto, cuspo no espelho
faço a barba e do meu modo tosco
digo que não me rendo
(os olhos injetados de veneno)
que não, nenhum possível descanso
e aprendo, a cada dia
que viver é uma queda
para o fundo
viagem sem chegada:
aprenda a ler paisagens, pela estrada
 
acordo, mas não desperto
durmo, mas não esqueço
e tudo continua
dia após dia
que faço, se não escrevo?
que sinto, se não gozo?
que quero, se não desejo?
a ferrugem me corrói
 
chega de assistir sempre
a mesma peça
sessão após sessão
mocinha, herói, vilão
é sempre assim
o mesmo começo, meio e fim,
novela das nove
o Bem vence o Mal
que nunca se extingue
o ípsilon e a borracha
do estilingue
 
 
a vida:
todas as coisas já compradas?
todas as bênçãos concedidas?
todas as crias já criadas?
todas as ofensas esquecidas?
todas as esmolas dadas?
todos os impostos sonegados?
todos os pecados perdoados?
todas as memórias resguardadas?
todos os desejos reprimidos?
todos os pecados confessados?
todas as mágoas diluídas?
todas as verdades escondidas?
todas as profecias anunciadas?
todos os erros redimidos?
 
nada nos impede de sermos
sem termos existido:
nem seus descendentes
saberão seu nome
a traça devorará nascimento e óbito
 
escreve o teu presente
que o passado e o futuro
a Deus pertence.