Antes a corrente era para crianças, homens e mulheres, negros...
Hoje, a corrente acorrenta a todos!
Antes vinham de além mar, quem nem queria vir,
Hoje, todos vêm de qualquer lugar,
Mal vendo as correntes em seus próprios pés...
O navio negreiro ainda existe, ainda persiste na vida de muitas criaturas...
E nele se desenrola a marcha dos desvalidos:
Vão-se em turnos mesclando-se negros, brancos, índios, mestiços,
Pagando com o próprio sangue, com a própria alma,
A passagem, muitas vezes sem volta, no negreiro navio de agora!
O tempo muda quase tudo, só não muda quem não quer...
Só não muda a gana pelo dinheiro,
Naqueles que escravizam os próprios irmãos,
Que a procura de um melhor destino,
Vagam sem rumo, sem razão, pelo mundo inteiro!
Sim, ainda existem navios negreiros...
O tempo muda quase tudo, só não muda quem não quer...
Navios que nem precisam de portos, nem de mares...
Navios que andam também nos ares,
Que rodam em rodovias...
Que aportam em águas da Europa,
Nas rodoviárias do mundo inteiro...
Navios que batem á nossa porta,
Trazendo bocas famintas, trazendo tetas secas,
Com as próprias almas quase mortas...
Navios de fantasmas, de sonhos desfeitos: crianças-esperanças-nati-mortas! Navios que trazem, quem nem sabe a que veio,
Que levam e trazem apenas o pó de sonhos desfeitos...
Navios indústrias de misérias prontas...
Navios escolas de misérias tantas...
Pois se não há lugar para aqueles que vêm, d’onde embarcaram,
Como poderia haver em seu destino derradeiro?
Sim, ainda existem navios negreiros...
Só as correntes não são de ferro, marcando pescoços, pulsos e tornozelos! E a quem gritaremos: “Andrada! Arranca esse pendão dos ares!”
A qual mar clamaremos: Porque não apagas, este borrão de suas vagas?
E a qual Colombo rogaremos: “Fecha a porta de teus mares!”
Se o poder que só prende e não liberta, não tem fronteiras, não tem pátria,
É uma praga que assola o mundo inteiro!

Edvaldo Rosa
www.sacpaixao.net
22/04/2015