NO CORAÇÃO DO MUNDO

Ainda ontem

eu tocava flauta no vale das solidões escondidas

quando uma águia de prata,

de asas longas

e garras de vento, veio

e roubou-me para sempre de mim.

De repente, eu estava nas alturas

e nem me lembrava mais

se era gente ou pássaro.

Viajava sem saber para onde,

entregue ao desígnio-pássaro

que tem o rumo desenhado apenas pelo instinto.

Sabia da urgência em manter os olhos abertos

para contemplar tudo.

Sentia um vento frio no rosto

e um outro frio por dentro.

Então, vi a montanha,

uma enorme montanha recortada

contra o azul da paisagem.

Há momentos na vida que são únicos

e derradeiros.

O instante breve entre um voo e o pousar

no ponto mais alto do mundo

me fez sentir que eu podia

ser bem maior do que um dia fora.

Agora, eu era a própria montanha,

e tinha olhos de águia e asas de vento.

Naquele instante mágico,

tive a plena certeza de que

algo diferente acontecia.

Tomei a flauta nas mãos,

levei-a aos lábios

e soprei uma canção:

a canção que celebra

a inauguração de um novo tempo

a pulsar no coração do mundo.

Agora, com lábios de montanha

meu sopro de pedra esculpe o grito

de esperança tamanha

que se ouve feito um eco para além do infinito,

bem mais alto do que a própria montanha.

José de Castro
Enviado por José de Castro em 20/05/2015
Código do texto: T5248005
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