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Paranóia século XXI

Sou um fluxo de meus pensamentos febris.
Sou a velocidade calculada sobre o dobro da velocidade de meus
                                                                         [instantes.
Meu olhar é assim célere, uma corrida.
Deixo-me entrever sob os sóis abatidos por esta atmosfera minguada,
                                                                         [em cinzas.
Sou o pó dos dias arrastados por tanques explosivos.
Suspendo o suspiro singular sem sentido
Sobre os sabres silenciosos com sangue saído das vísceras dos
                                                                         [sentenciados.
Vou assim sibilando, sentindo o sufoco do enredo.
As palavras me algemam e me condenam.
Vou para o presídio de minhas idéias.
Sou um dos sentenciados por matar as formas:
Assassinei Petrarca e Camões.

E daqui, do meu calabouço, um buraquinho, uma fresta...
Ponho meu ouvido.

Alguém grita, é um maníaco, talvez um hipocondríaco:

"Eis o século das máquinas,
Das engrenagens milimetricamente justapostas,
Dos pensamentos numéricos, das ações vendidas,
Do futuro comprado a prestações com a paga do canibalismo das
                                                                        [fábricas.
'Tu serás devorado! Entra pela minha boca!'

Deus está doente dos olhos e com otite,
Mas ainda escreve bilhetinhos de amor:

'Bem-aventurados os que morreram ontem,
Pois estes não verão a prole arruinada pela supressão diária das
                                                                        [idéias.'

Cristo foi despregado e posto num hospício,
Nossa Senhora espera uma oração há décadas:
Os devotos votaram a crença em novos deuses:
Eis a bandeira do paganismo, do ceticismo, do niilismo, do ateísmo,
                                                  [do reformismo, do bestialismo,
                                             [do mecanicismo, e dos mais ismos
                                         [sobre a mesa dos famintos!"
Ah, por que matei Camões?
Bem que eu poderia ter apenas cortado suas mãos
                                                            [ou furado o outro olho.

Vou, quem sabe, escrever uma canção a Tzara
E reinaugurar o Dadaísmo:

"Oh, quanto amor na tua voz, Dama do Lago!
Canta a feliz sina de Arthur
Assim que te entregou a Excalibur,
Depois de mutilar, com doçura, Lancelot
E estuprar Guinevere com paixão
Diante de toda a Camelot."

Entreguei a canção ao carcereiro, mas ele me disse:
- Dadá, mas que dadá? O que significa isto, meu jovem?
- Nada.
- O quê? Achas que sou um imbecil? Repete!
- Nada, simplesmente nada! Nada e mais nada! Que queria que eu dissesse? É um conceito absolutamente filosófico, entendes? Nada!

Ah...

Agora perdi o gosto do verso e caí na prosa. Amanhã serei condenado por duplo homicídio: Petrarca e Camões, duas fatalidades. Foi por causa da forma. Sairá no jornal meu fuzilamento. Ah! Ah! Ah! São as malditas máquinas de matar. Ao meu lado, outro condenado! Ah! Ah! Ah! Um inseto, um despojo, uma idéia que vem me picar a cabeça! Estou preso no enredo. Quá! Quá! Quá! Quá! ...

- Ei, carcereiro! Ei, me vê aí um esquadro, um mapa (me manda toda a cartografia de uma vez!). Além disso, quero uma pena de ganso e uma calculadora!
- Que queres tu, animal?
- Quero agora estar a escrever uns versinhos, uma oração, sabe?
- Estás a pensar em quê?
- Um versinho só para dormir.

Saiu.

Fechou a porta de ferro na minha cara.
 
Fui dormir, então...

...zzzzzzzzzzz!!!!!!
 


   

Tom Lazarus
Enviado por Tom Lazarus em 08/08/2007
Reeditado em 26/08/2007
Código do texto: T598313

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Sobre o autor
Tom Lazarus
Gravataí - Rio Grande do Sul - Brasil, 42 anos
53 textos (6026 leituras)
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Tom Lazarus