AO QUE VAI TARDE

Durando a vida por excesso e dano,

No mais que por apreço -- ou vício -- ao cego

Apraz sobrando além do justo, o apego

Ao que de si diz sim, julgando humano

O poster, o cartaz, a propaganda

-- vaidade, medo e vivas por demanda.

Habita o verbo errar por armadura

Sinistra, a guarda vã dum tempo findo.

Imerso nessa luz que vai partindo

Aos poucos, fria, de algum modo impura,

Sem sombra que lhe acuse o ser, é lenda,

O estorvo num crepúsculo que o ofenda.

Outono a meio a angústia costumeira

Da fala sem dizer, mudez injusta

Em dolo, na indelével falha augusta

Em jingle que não fede, que não cheira

Embora tente (por carente) a treta

Que se interpreta, hermética, concreta.

Silêncio obtuso o olhar é surdo apelo

A quanto seja forma em si vazia.

O agora vão modorra em paz e azia

Se encanta em Kant a tal noção do Belo.

São dias de dizer "Adeus, amigos!"

E o instante é o mais inútil dos abrigos.

Além do pó, que a chama encontra acesa,

Um nome em tipo cult, e lá no após,

Resiste, um busto contra a doce algoz.

Viver talvez fosse isso, essa defesa

Heróica duma casca em tudo indigna,

Que cede, enfim, pilhéria algo maligna.

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Israel Rozário
Enviado por Israel Rozário em 01/04/2020
Código do texto: T6903754
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