Veneno

O quintal era nosso mundo

Árvores, frutas, folhas ao chão

Risadas de doer a barriga

Havia o encanto

E a doce inocência

Nossa pouca idade resolvia

Qualquer obstáculo que nos impunham

Entre nós, em nossa bem-querência

Mas o tempo foi passando

E de colorido, tudo passou a ser

Preto e branco

Olhares amargos

Palavras cortantes

A descoberta do feio,

Do errado, do proibido

Arrastados pela lama

Soltamos nossas mãos

O que talvez não sabiam

Ou sequer desconfiavam

É que havíamos nos ferido

Espinho ou estaca

Cravada no peito

Veneno na corrente sanguínea

Percorrendo todo o corpo

Subjugando mente e espírito

Longe um do outro

Chegamos a morrer

E tudo que era vivo

Coisas e pessoas

Morreram também

Matamos o mundo

Ressurgir, agir

Assim ressuscitei

E trouxe você comigo

Inventamos a vida novamente

Pintamos o céu e o mar com novas cores

Espalhamos areia, pedras, conchas

Direcionamos o vento

Soprando sempre em nossa direção

Provamos o doce e o azedo de todos os frutos

E mesmo não sentindo solidão

Decidimos compartilhar o que era bom

Com humanos e desumanos

Escolhemos um canto para viver

Retornamos ao nosso quintal

Eternizamos nossas crianças

E tudo voltou a ter cores

Vivas, quentes, verdadeiras

E desde que nos demos as mãos

Mais uma vez, e para sempre

O peito já não dói

Não obstante o veneno continue

A percorrer minhas entranhas

E um dia, quem sabe

Se Deus quiser

Mate-me por fim

Rafaela Alonso
Enviado por Rafaela Alonso em 09/11/2020
Código do texto: T7107738
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