PSICÓTICA

Lilian Maial

 

 

Eu ouço vozes e vejo coisas que não existem, como naquele filme.

Dei para escutar o chamado das florestas queimadas e derrubadas,

para dar lugar ao lucro,

o coro uníssono da Amazônia, suplicando por oxigênio,

dos indígenas dizimados pelos que esquecem que deles é a terra onde pisam,

das mulheres ultrajadas, das amordaçadas, das que sofrem mutilação genital,

dos homens sem sustento e sem rumo,

das negras violadas e sem oportunidades somente pela cor da pele,

das crianças seviciadas e assassinadas,

dos detentos em celas desumanas e sem direitos.

Ouço o grito dos porões da alma em chamas,

dos torturados que apenas buscam a liberdade,

dos assediados, subjugados pelo poder patriarcal,

dos que não podem manifestar seu amor em nome do amor.

 

Eu não quero me curar, nem beber o remédio da normalidade!

É preciso ouvir essas vozes!

É preciso deixar gritar!

Ainda ouço o cantar dos pássaros,

fazendo fundo para o choro das mães de maio, de junho, julho, do ano todo!

O sol nascer para denunciar mais um feminicídio,

mais uma criança espancada,

mais um animalzinho incendiado.

 

Eu vejo o mundo de outra forma.

Vejo as pessoas se respeitando,

se ajudando, se unindo para o bem comum.

Enxergo mais além, as artes comandando o espetáculo da vida,

reunindo talentos e momentos de ouro prazer.

Geração após geração repassando conceitos de fraternidade e construção,

amparo aos desvalidos e absoluta veneração aos mais idosos.

Um mundo onde a ambição e a vantagem são palavras que causam estranheza.

 

Dizem que necessito eletrochoques,

esses que Nise da Silveira tentou abolir.

Ou que preciso ser trancafiada, para não prejudicar os sãos.

Quem sabe algum novo método de extermínio indolor,

ou um muito dolorido, para deleite do carrasco?

Seja como for, continuo ouvindo vozes.

Vozes que me dizem da minha covardia de tampar os ouvidos

e colocar música em alto volume para não escutá-las.

Vozes e ideias que martelam minha cabeça dia e noite.

E essas alucinações que me mostram o caminho para os confins,

onde tudo pode ser resolvido com o diálogo.

 

Creio que me enlouqueceram, mas não estou sozinha, Mátria Amada!

 

E ainda conseguimos escrever poemas.

 

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