SOU UMA MULHER QUASE COMPLETA 

Lílian Maial

 

 

Conheci as manhãs e suas cores, 

as noites e suas fragrâncias, 

as madrugadas e seus silêncios. 

Conheci os homens e suas fraquezas. 

As mulheres, queria ter conhecido um pouco mais,

mas pude sentir sua força infinita.

Fui muito essa força.

 

Carreguei filhos na barriga. 

Uma arte e uma declaração de guerra.

Toda mulher é artista e beligerante desde sempre.

Minhas ancestrais me ensinaram o caminho.

Andei distraída por tantas trilhas,

avoada e envolta em penas e penares.

Me pari algumas vezes. Me placentei.

Isso está ficando diferente do que pensei.

 

Sou uma mulher quase completa.

Fiz algumas escolhas acertadas. 

Outras, nem tanto. 

Todas me fortaleceram.

Escapei de várias ciladas, 

caí em algumas, armei outras tantas.

Sou quase aranha. 

Umas vezes teço os fios,

em outras me enrolo no visgo e viro prisioneira de mim.

Me desvencilho e me ergo mais uma vez.

 

Convivo com falhas e aprendi a me perdoar. 

Acordei a tempo de ser mãe 

 - estive torporosa por um bom período - 

despertei.

Acordar implica em dor. 

Eu doí e fiz doer.

 

Sou uma mulher quase completa.

Amo as plantas!

Tenho prazeres estranhos quando uma flor desabrocha.

Elas me falam de beleza e finitude

e dessa arte de se manter bela até cair sem vida.

 

Amo os bichinhos, principalmente os cães e os cavalos. 

Os primeiros, como filhos amorosos, 

criaturas especiais, 

que nos entregam suas vidinhas, 

sua alegria e seu companheirismo. 

Eles nos olham através dos olhos. 

Eles enxergam. 

Os equinos, por sua elegante mudez, 

sua presença marcante, sua liberdade a despeito das selas.

E tenho admiração pelas serpentes, desde o paraíso.

 

Amo os livros, as palavras, os versos.

Quero versos lidos no meu velório.

Declamações dramáticas, intensas, sensuais, como sempre fui.

Não quero que me lamentem ou chorem.

Quero música! Beto Guedes e Sinatra! 

Quando entrar setembro… I did it my way! 

 

Sou uma mulher quase completa.

Nasci morena de olhos quase pretos.

Transmutei com os anos. 

Virei poeta loura, de olhos de chuva.

Nada de não gostar de quem sou.

Mas os anos vão nos modelando e a poesia também. 

Surge alterego, heterônimos e adjetivos.

Gosto do que vejo no espelho, loura ou morena. 

Não gosto muito do que não vejo, 

ou daquilo que o espelho não diz.

 

Sou uma mulher quase completa.

E por que não sou completa?

Porque me distribuí em tudo o que amei, 

a tudo o que me dediquei, 

a todos os sonhos que ousei. 

Essas porções ficarão por aí.

Quem sabe eu não me reúna depois,

reintegre as partículas num livro, 

num afago súbito, 

numa lembrança? 

 

 

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