A ESTAÇÃO ABSOLUTA

A espera teve seu cobro,

Porque os matizes da rarefação

Habitam-me a mente

E copulam o meu corpo.

Tenho a leda, refrigerante e vívida sensação

De que posso flutuar qual uma pena:

Floresço como filho da ubiquidade

Pois me transmudo no hialino corcel negro

Que cavalga pelas enigmáticas e copiosas

Alamedas da esconsa face do firmamento,

Onde ascendo ao trono de escudeiro da onipresença.

Ah, ao assumir a forma do vento,

Incorporo a sua mais etérea essência!

Creio olhar as paisagens da consciência

Com plástica, total mas também sóbria clareza:

Impressiona-me como a sensibilidade,

Livre das amarras da ferina indulgência,

Faz-nos mirar, fixamente,

Nos furtivos olhos da malevolência.

No entanto, este ainda não é o crepúsculo

Da minha odisseia:

Ao ter o ensejo de prospectar

O fundo dos olhos da sádica Quimera,

Penetro-lhe no âmago da caverna,

Lugar no qual contemplo a fronte da hipocrisia:

Imagem abjeta! Abjeta! Ojeriza!

Afinal, sinto-me em paz comigo mesmo.

Entretanto a paz com o mundo

É uma atroz miragem que reina

Além das nossas humildes e impotentes vistas,

Confinadas, eternamente,

No éden dos desterros;

Uma imensurável chaga aberta

Pelos prisioneiros da inesgotável

Síndrome da cobiça, da indomada ambição,

Do maléfico e insidioso desejo!

Ah, todavia, sou

O amálgama do correr

Do guepardo e da gazela:

Apesar das intempéries de tristeza,

Que me lancinam e me laceram a mentosfera,

Durmo sereno, ao menos hoje,

Por estar sob o aconchego

Da plácida nave da Primavera.

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA