EROS

mestre

vê como a plantação

que aramos nos ventos de agosto

medra nutrida além dos campos de trigo

já palpita a loura espiga

como um casto seio túrgido

nas manhãs perfumadas de seiva

e rebrilha ao sol as rubicundas uvas

que em breve encherão

nossas bilhas de vinho

ouve mestre

como trila alegre o canarinho

pelas ramas frescas da amoreira

e as codornas ciscam excitadas

entre os canteiros de batatas

a própria lua mestre

alva como uma nádega redonda

parece seduzir a madrugada andarilha

reclinando-se nua em seus travesseiros de trevas

tudo pulsa freme e lateja

nesta estação de libidos vulgares

e só meu peito aderna desamparado

mastro a pique

num oceano movediço

rumo ao nada

mestre

é isto a morte?

o mestre:

tu indagas se estás às portas da morte

enquanto o mundo sorri a teus olhos

enquanto a vida brinca a teus pés

tu indagas se estás às portas da morte

pois te digo que tens as chaves da vida

pois te digo que estás às portas do amor

José Martino
Enviado por José Martino em 28/12/2008
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