D e v a n e i o Sublime

Encontro-me na rua, sozinha.

Sinto cada minúsculo pedaço de meu corpo se contorcer em silêncio.

Cada átomo de célula vibra

E se debate e geme e então espera

Espera apenas por ser a única alternativa, por ora.

Como uma planta não regada

Cujas folhas aguardam ansiosamente jorrar a água sobre si

Cujas raízes sugam devagar os nutrientes do solo para sobreviver

Cujas flores observam a vida se desdobrando à frente e desejam ficar vistosas para viver antes da morte nas mãos de algum poeta que as admire.

Curiosamente sinto falta do que nunca tive

E é a mais pungente de todas.

Porque chegaste sem avisar e sem estardalhaço.

Tu, com tua existência tranqüila e forte,

Em contato breve e sutil com a minha existência intensa e caótica,

Foi capaz de tirá-la do calabouço frio onde se escondia, presa pela dor e pelo medo

E conduzi-la à visão do nobre jardim que se encontra detrás de uma janela qualquer.

Ah, revelaste-me as janelas, não deverias, não deverias!

Não me é possível apenas olhar através delas

Eu salto para fora...

Ainda que não saiba de que altura, ainda que não veja o que há no chão,

Salto num arrebatamento de coragem

Pois não experimentar a possibilidade de haver um novo mundo é a maior das torturas

- ouso desvendá-lo sem nunca conhecer o mistério que o envolve, porém

(Mistério sagrado que nenhum homem pode compreender)

Com olhos vidrados e a alma triunfante

De quem simplesmente arrisca e vive

- e a rua desaparece, de repente.

Clarissa de Baumont
Enviado por Clarissa de Baumont em 17/03/2009
Código do texto: T1491603
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