OS MOMENTOS DE BEATRICE ROSE...

Poetha Abilio Machado. 2009.

Talvez eu... Por que não?!

Andando sozinha pela rua

Os rostos passavam por mim no dia

Eu andava em mim

Meu corpo dentro daquele dia claro

Eu plena moça na manhã

A boca entreaberta

Meu coração inocente e gasto

O quarto deixado para trás: escuro!

Meus olhos abrindo como janelas

Na cama jogada minha adolescência

É a cama. Testemunha vagabunda...

Uma noite incerta

Na luz que rasgava a cortina

Você me agarrava

E eu te gritava

Você que disse que me amava

Não me aceitou!

Meu mundo atingido

Tingido

De um vermelho duvidoso

Lancei-me nas escadas

Fugindo do silêncio

Daquele sorriso de escárnio...

Por que faz isso?

Por que ri maldito?

Por que?

A vertigem me cegava

Algo dentro de mim

Regurgitava um nome

Era o medo nascendo da verdade...

Uma verdade minha, só minha

Compartilhada...

Eu calada descia as escadas

Descalça segurando a bolsa

Da cor do sangue...

Me dei conta de que nada

Nada sabia de mim

Por mim mesma

Estava fugindo num pensamento...

Qual seria?!

Uma razão pela ausência

As vozes de ontem...

Como foram...

Eu escutei?!

À noite...

A porta aberta no quarto

Todo pintado de azul claro

Quadros de artistas zoavam aquela parede

Tudo quase infantil

Eu me achava pronta

Quase estive certa

Meu coração olhou para o lado...

Tudo era festa, ali!

__Esqueci seu nome!

O cigarro afastou-se dos lábios

O terno limpo e claro

Os sapatos engraxados

Lenço no bolso

O homem: a noite!

Puxou-me pelo braço no cumprimento

Segui pela música

A sua mão na minha cintura...

As taças não secavam

As borbulhas da champagne

O vinho levemente amargo

Desciam pela garganta

Me deixavam louca

Era ainda bem moço

Na saída os delírios

Braços dados pelas calçadas

A garôa escondia minhas lágrimas: aquele beijo!

Sua mão cruel

Aquela boca invadindo-me de dor

Meu corpo doce

Deixando-se invadir

Eu não resistia

Foi uma noite que o coração pediu

Quando me dei conta

Era escuro na noite

Me vi entre o sonho e o pesadelo

Aquele moço, um varão.

Sim? Sim.

Quis sair...

O homem insistia

Aquele jovem comum

Ah, meu pobre rosto mentiroso

Recuava perdido na noite

Inventei um nome para mim.

Agora era um retrato pedindo perdão...

Cantava na noite

Meus limites em mim

Era eu mesma... Talvez...

Me perdi me olhando

Cara a cara na vitrine

Hoje de manhã...

Prazer... Meu nome é Rose.

Beatrice Rose...

E você?!

Sou uma flor a espera de ser olhada

Apenas uma flor

Quero ser rosa... E como rosa ser cor de rosa

Embora mentiroso

Mesmo com caule entre as pernas, sou rosa!

Ah! E se hoje morresse à vida

Renasceria jovem, bela e ainda rosa

Meu destino não é vazio:

É florir o jardim em qualquer coração!