POEMA SUBMERSO

Estou aprendendo a escrever poemas embaixo d'água.

Iniciação à submersão. Seguro o folego até o mais que posso.

Devagar introduzo meu corpo dentro da massa aquática,

Sou abraçado por milhares de gotas, geladas,

Inicio minha experiência, minha primeira vez,

Relaxo. Flutuo. Canto a canção das arraias.

Vejo flores móveis, peixes rindo, algas dançantes,

Cascos de garrafa, sapatos com lantejoulas,

Máscara de palhaço, gravata borboleta,

Um revólver raspado, taças de champagne,

Parece uma festa. Uma grande festa.

Mergulho mais fundo, começo a adquirir guelras,

No fundo vejo um navio com marinheiros na amurada,

A prancha, bandeira de um navio pirata cheio de furos,

Leio na areia palavras afogadas, pedidos de socorro,

Um $.O.$. escrito por algum magnata que não queria morrer.

Vejo a transparência dos substantivos, o fundo falso

Dos adjetivos, a coerência do ponto final,

Cavalos-marinhos levando ovos ao ninho,

Descanso a mão e a caneta se esvazia.

Escrevo n'agua palavras cheias de oxigênio,

Organizo manisfestos de baleias em extinção,

Pedidos de instalação de grandes esponjas

Para estancar o vazamento de óleo nos mares.

Peixes de olhos sem fim olham para mim

Como se eu fosse o fim de tudo,

O mergulhador que pudesse mudar todas as coisas do mundo,

De lugar, de posição, de vontade, de conserto, de solução.

Então, lentamente digito a frase "não posso",

Ela se gruda ao casco de uma tartaruga que caminha distraída,

Peixes listrados passam rodopiando, polvos me oferecem tinta,

Deixo escapar bolhas de ar, mais e mais, mais e mais,

Acaba meu oxigênio, meu gênio, fica vazio meu proscênio,

Lá estou, estendido, signo Peixes, massa corpórea descansando,

Poema em carne e osso, lido às avessas, vivi sem pressa,

À espera de um outro mergulhador que leia em minha espinha

O que sou, de onde vim, de onde vinha essas palavras molhadas,

Secretas, de Netuno roubadas, mapa certo de um sujeito incerto,

Que viveu a vida procurando por tudo à troco de nada.