ESCULTURAS I-X

ESCULTURAS I -- GOIVAS

Ela me busca agora. E até gentil

se mostra quase sempre. E se reclamo

ou me recuso a lhe dizer que a amo,

se comporta de maneira mais sutil

do que quando a perseguia, em pueril

afirmação constante, até em afano

de dizer-lhe que a amava. Sem engano,

parece até querer-me em tal viril,

rabugento protestar de suas maneiras,

em demonstrar até menos paciência.

Quiçá o tempo revirasse essa ampulheta

e a areia que ora escorre pelas beiras

me recompensa por tanta continência

e na balança o equilíbrio se completa.

ESCULTURAS II -- CINZEIS

Ela me quis assim, igual que sou,

em meus torvos trabalhos de paciência,

horas a fio ao teclado. A indolência

por entre os dedos se dissipa e estou

disposto a desgastar o que ficou,

letra por letra, em lauda sem clemência,

sem lhe dar atenção. A diligência

percebe bem que já a recompensou.

Assim eu fico. Os dois na mesma casa,

ela assistindo a seu televisor,

eu contemplando a tela sem imagem,

em que as letras se sucedem, vasa a vasa,

e é trabalhando que demonstro amor,

que estes meus versos são tão só miragem.

ESCULTURAS III -- BURIS

Muitos sonetos já fiz no meu passado,

melancólicos uns, outros eróticos,

versos candentes de amor apaixonado,

outros austeros de pendor, despóticos

em seus conselhos, muitos estrambóticos,

outros sinceros ao ponto que esgarçado

me têm o coração... Fragor alado,

em desafio aos deuses semióticos...

E agora, nestes meus períodos vagos,

de espera inútil, antes que me cheguem

os alunos, versos de amor queria

escrever para ti, falar de afagos,

de abraços e de beijos que me reguem,

mas só consigo esta emoção vazia...

ESCULTURAS IV -- ESCOPROS

Na verdade, o ambiente não é propício

para empreender de poemas a escultura:

passos contínuos... Vozes sem ternura

me assaltam os ouvidos feito um vício.

E fico a me assombrar, neste bulício,

buscando transportar esta tortura

a versos tristes de palor e agrura,

alegres versos de um amor resquício...

E os versos vêm, cá estão, mas certamente

não são os versos que escrever quisera

para expressar ferozes sentimentos...

Não são versos de amor, infelizmente:

são os termos somente da quimera

que se rebolca nos meus pensamentos.

ESCULTURAS V -- RASPADEIRAS

Eu me revolto nesta angústia mansa:

podia estar em casa e trabalhar

em coisas bem mais úteis que esperar

para dar uma aula que me cansa,

que não me dá prazer, nem esperança,

nem me permite sequer amealhar

alguns bens para o futuro... Vou gastar

em condução metade da pitança

que a universidade paga. Faço versos

para matar o tempo e sem vontade:

se fosse embora, ganhava muito mais.

E nem sei que indolência nos diversos

prédios do campus me conserva, quais

os meus motivos em tanta saciedade...

ESCULTURAS VI -- CERA PERDIDA

Eu acredito que hoje foi tomada

minha decisão -- pois não aceitarei

ser paraninfo. Que razão terei

para a perda de tempo demasiada

que me desgastará, a hora cansada

dessas repetições evitarei,

meu tempo bem melhor empregarei

em outra tradução desmesurada,

pois devoram minha vida, diariamente,

essas aulas inúteis, nostalgia

perene de minha casa e meu trabalho,

que sinto na cabeça como um malho,

que me dilui o cérebro e que a mente

desfaz perante audiência indiferente.

ESCULTURAS VII -- FENDILHA

Minha vida foi estátua cinzelada

em maleável teor, pedra-sabão,

disposta, no ardor da aceitação,

a cumprir a tarefa indesejada.

E como trabalhei! Ganhando nada,

a troco desse esforço e sangração,

ano após ano e sempre abrindo mão

de meu próprio interesse descuidado.

Mas agora, existe cerne de granito,

por trás da ganga aos poucos martelada:

chegou o tempo de meu próprio bem

buscar, que não tenho o infinito

mais em minha fronte já entrecortada

pelos amores que perdi também.

ESCULTURAS VIII -- CALIÇA

Uma estrela me olhou, vaidosa e grácil...

Bordada na amplidão, entre centenas,

refulgia de leve, pois, apenas

durante a noite tinha brilho fácil.

Pois quando o sol brilhava, estrela velha

se demonstrava, inda que jovem fosse...

Tremeluzia o brilho em que se esboce

toda a energia que uma estrela espelha.

Mas amei essa estrela, tão antiga,

porque era frágil, em sua antiguidade

e não por ser eterna para mim.

Amei a estrela, pensei fosse minha amiga,

até identificar-lhe a falsidade:

foi para outro que brilhava assim!...

ESCULTURAS IX -- ESTILO

Vamos supor que desta vida os dotes

fossem tirados de um só reservatório,

cuja capacidade, qual no empório,

fosse delimitada. Assim, os motes

de um poeta não lhe pertenceriam,

mas seriam de todos, com certeza;

e quanto mais criasse de beleza,

tanto menos os outros ganhariam.

Vejo a que ponto a responsabilidade

cabe a mim: ser poeta é um caro dom,

se tantos dotes provêm do mesmo fundo.

E quanto a mim, toda a versatilidade

só assina de outro empréstimo o cupom,

cujos juros pagarei a todo o mundo.

ESCULTURAS X -- TROLHAS

Percebo assim qual o juro desse empréstimo,

como interesse composto, que acumula

o peso dessa dívida, estranha gula,

que para versos somente teve préstimo.

Mas não é meu o talento que se anula,

e durará enquanto eu for capaz

de honrar tal subvenção... Desde rapaz

aceitei o tratamento, sem ler bula.

Agora o peso desses versos chega a tal

ponto que esse fardo mal carrego:

é muito mais tarefa que prazer...

Já anteriormente a carga desigual

pensei ter descartado, sem saber,

que era invisível e somente estava cego!

ESCULTURAS XI -- JATOS DE AREIA

Por algum tempo, os outros pretendi

esculpir, por vaidade ou por tolice;

nada adiantou, foi a maior sandice,

pois cada um deve cuidar de si.

E o tempo que com os outros eu perdi

melhor tivera empregado em meu favor,

esculpindo a mim mesmo com ardor,

pois não teria sofrido o que sofri.

Mas deixei me esculpissem nesse enquanto

esculpir aos demais eu intentava,

pois cada cinzelada me feria,

tal como se tentasse, no meu pranto,

esculpir com o cabo e segurasse

a lâmina na mão que se esculpia...

ESCULTURAS XII -- TAPAPÓS

E permaneço até hoje recolhido

neste bloco de pedra que me envolve.

Meu esforço, duramente, é que revolve

pouco a pouco essa ganga, sem ruído.

A mim mesmo esculpi, corpo ferido

pelos meus próprios golpes, em estilhas,

cada retalho verdadeiras ilhas,

que deixei afundar-se, sem gemido,

as lascas que tirei, de em torno. Assim,

levaram muito sangue e substância,

mas não me fazem falta e revelaram

a minha própria estátua e relevância:

fui eu que martelei e fiz em mim

o que os demais esconder em mim buscaram.

William Lagos
Enviado por William Lagos em 15/05/2011
Código do texto: T2971105
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