METAPAVANA & MAIS

METAPAVANA I (12 jul 06)

O que eu sinto por ti é amor de vento

que te golpeia o rosto; amor de chuva,

no calor mais intenso, amor que sente a luva

pelos dedos que envolve, num momento

de intimidez total; amor de duas colheres,

uma encaixada à outra; amor de ameixa,

que sumarenta escorre, sem mais queixa,

e se espalha em doação de malmequeres.

Mas o que sinto de ti é o amor da água,

que escorre entre meus dedos, refrescante,

porém que não retenho; amor de areia

que escorre da ampulheta e que me enleia

o coração... tão só por um instante...

e então se vai, sorrindo desta mágoa.

METAPAVANA II (28 dez 12)

É para os mortos que se canta uma pavana,

por isso segue este soneto alheia meta,

quando só morre o amor que nos afeta

e permanece a calidez que nos irmana.

É para os mil sintomas que proclama

aquela exaltação que nos completa;

e quando a febre se esvai, ainda projeta

a bruxuleante visão de flébil chama.

É para as flores murchas que se guarda

entre as páginas de um livro por memento,

para se achar outra vez anos depois.

É para a lenta saudade que me aguarda

depois do avelhantado juramento

que se enrugou e nem prende mais nós dois.

METAPAVANA III

Vai a pavana para a água dos filetes

que me escorreram entre os dedos e deixaram

ainda o frescor dessa hora que brindaram

em seu grudar sutil de mil confetes.

Vai a pavana para os antigos ramalhetes

dessas flores de areia que secaram

e de novo em grãos de areia se tornaram,

iguais sonhos nas nuvens que projetes.

Vai a pavana para aquele pedestal

em que te entronizei num casto instante;

para esse altar marchetado de emoção

cujas ripas e caixilhos, afinal,

foram serrados da tábua envermelhante

desses coágulos de meu próprio coração.

ANESTÉTICO I – (10 JUL 12)

os dias vão passando em horas vãs, desnudas,

vazias de sentido, molduras só de espera,

traços de união somente, inquietações agudas,

enquanto não se cumpre, enquanto não se altera

de minha irrealidade essa aguardança morta:

percebo tudo em torno qual nunca houvera visto;

não reconheço nada, a mente não comporta

e toma como estranhos os gestos que me assisto

a praticar, tais como cenas de um romance,

os atos de uma peça, um filme que passasse,

porém que contemplasse tão só de indiferença,

enquanto a vida fica, suspeita num relance,

suspensa de teus olhos, tal como se contasse

uma história mal feita e envolta em minha descrença...

ANESTÉTICO II (28 DEZ 12)

nessa ausência de ti minha vida só suspeito,

as nuvens de algodão em plástico viraram,

meus passos que flutuavam, agora se afundaram

nesse colchão de água insuflado de despeito...

eu como e bebo, porém gosto não aceito,

que o olfato e o paladar de mim já se afastaram;

o mundo num papel apenas desenharam,

só escuto as repreensões a que ainda estou sujeito;

nessa ausência de ti, eu vivo em cinza escala,

apenas gradações do branco para o nada,

palpável só o negror de que ainda recuo,

vivendo em mim somente a mágoa que me embala,

sem sentir maciez ou o talho de uma espada,

apenas perceptível o rigor de teu amuo...

ANESTÉTICO III

é claro que prossigo em meu lento palmilhar,

mas não é que eu avance, é o tempo que recua,

numa esteira rolante, numa navalha nua,

que me corta em fatias, sem ao menos me magoar.

pois esta sua passagem me abstenho de notar,

envolvido que estou na seda dessa lua

que os sentidos me embota e nada mais estua,

sem que soe o coração ou narina a respirar,

que tudo se gastou na sombra dessa ausência,

no clorofórmio ácido do corte da paixão,

no éter persuasório da plena indiferença

e neles vivo ainda, imerso na paciência

do lento relembrar de respingos da emoção,

até que um dia, talvez, à anestesia vença.

ANESTÉTICO IV

pois nem ao menos posso sentir a gravidade

desse corte profundo que me rasgou a sorte

e nem a gravidade da Terra me traz norte,

mas tudo a meu redor mostra idêntica inverdade;

se ao menos eu sentisse um travo de saudade

ou então lamentar pudesse qualquer morte,

porém nada mais sinto do que esse feio corte,

que nem sequer lateja em plena inermidade;

que a alma não gangrena e nem tampouco dói,

porém fez-se insensível na sombra da aguardança

de algum alívio puro que nem sei mais qual é;

só sei que pouco a pouco o sentimento rói

e vai pulverizando cada caco de esperança

em mil brilhantes pontos sondando nova fé.

ADEUSES 1 (28 DEZ 12)

Já não me preocupo. Encaminhada

Sei que te encontras e firme está teu passo,

Desvencilhado em total de meu abraço,

Para que sigas direto pela estrada.

Não mais precisas por mim ser suportada;

Tua vida é tua, por mais que seja escasso

O fanal que carregas no regaço;

Não mais precisas que galgar a escada.

Eu permaneço aqui, no meu cantinho

De onde avisto o mundo e apenas vejo

O que de ti mostrar tu me quiseres...

Mas se algum dia precisares de carinho,

Bem sabes como achar-me nesse ensejo

E te retribuirei quanto me deres...

ADEUSES 2

Já não aguardo mais qualquer encontro,

Pelo menos neste mundo dos mortais.

Talvez te veja nos páramos astrais,

Talvez haja, mesmo ali, um desencontro.

Quiçá, no oposto, ocorra algum recontro

De almas passeando por sendas siderais.

Quem sabe não há encontros nunca mais

E só te veja no sonho que defronto,

Criado embora, por mim mesmo, para mim,

Compensação pela saudosa espera,

Sem que nela possa crer honestamente,

Porque mil devaneios tive assim,

Forjando sonhos que o consciente altera,

Pelos quais sei que espero inutilmente.

ADEUSES 3

Seja qual for o caminho que tomaste,

(Se é que tomaste algum caminho)

Eu mesmo seguirei, em poucochinho,

Talvez a mesma senda que sondaste;

Quiçá por uma trilha que deixaste

Cheia ainda de urzes e de espinho;

Ou, quem sabe, já encontraste o escaninho

Que para longe de mim sempre te afaste.

Certo é que nada mais posso fazer;

Bem te apoiei enquanto estavas perto

E nesse longe não te alcançarei.

Mas se algum dia buscares meu querer

Novo caminho só por ti será aberto

E nessa leve esperança aguardarei...

SÍLFIDES I (29 DEZ 12)

sempre em amor existe suavidade,

por maior que nele habite distorção;

na violência envolto ou em prazer vão,

na negação por capricho ou inermidade,

sempre algo sobrevoa a saciedade,

que nem se pode chamar de gratidão

e nem se trata de tão só satisfação:

algo se gera nas penas da saudade;

pois mesmo que não haja gestação

carnal de alguma nova criatura,

um ser astral pelo sexo é nutrido

e ali fica, até morrer de inanição,

filho minúsculo, qual avezinha pura,

desses pequenos amores sem sentido.

SÍLFIDES II

algumas se enchem de um sutil rancor,

quando depressa se vão os participantes

e nunca mais repetem os instantes

que lhes propiciariam mais calor;

então se prendem a quem teve mais vigor,

seja o homem ou a mulher executantes,

buscando-lhe emoções nutrificantes,

leves gavinhas de um ato sem amor.

e assim se atrelam, sem ser parasitas,

leves epífitas, porque nada sugam,

senão aquilo transpirado pela alma;

e a pouco e pouco se tornam mais bonitas,

quando sonhos de amor do peito fugam

e flutuam ao redor, em doce calma...

SÍLFIDES III

mas quando encontram maior aceitação,

ainda que seja completa no inconsciente,

então se abrigam nesse ninho quente

e nele forjam sua rede de emoção.

são dos poetas as mães da inspiração,

tais serezinhos de esplendor silente

que nos constroem no peito, gentilmente,

uma oficina dedicada à criação.

outras, porém, sem achar essa acolhida,

ficam inquietas, adejando tolamente,

tendo por alvo ser vívida armadura

a proteger contra agressão sentida

e a impedir que se ame inteiramente,

na prevenção de uma nova queimadura.

SÍLFIDES IV

e finalmente, há aquelas projetadas

contra o parceiro ou parceira que deixou

vazia de carinho a alma que amou,

de ódio e raiva tão só alimentadas.

se, por acaso, forem alcançadas

essas pessoas contra quem se projetou,

farão pagar pela indiferença que mostrou

cada uma delas pelas outras desprezadas.

contudo espero que minhas sílfides pequenas

bem fundo ao coração achem abrigo

e não intentem a ninguém fazer-lhe mal;

que floresçam em sonetos de açucenas,

sempre enfeitando meu amor antigo,

alegres adejando em meu astral!...

CÉUS MAGENTA I (30 dez 12)

O por-do-sol se reveste de mil cores,

fímbria de manto que recobre a terra

e que persegue, por sobre mar e serra

cada percurso do Sol em estertores.

(Sei bem que são opostos tais pendores:

é a Terra que se expõe e o Sol que enterra,

indiferente à majestade que ele encerra,

em tal desnudamento a seus calores).

Porém se nós olharmos para os lados,

em automóvel, em ônibus ou em trem,

é a paisagem que perfaz sentido inverso.

E mesmo ao sermos racionalizados,

vemos cada outro veículo, que também,

escorre para trás, em sonho imerso.

CÉUS MAGENTA II

Desse modo, quando árvores e sinais

celeremente de nós sempre se aproximam,

julgamos que ao passado se destinam,

que já deixamos perdido no ademais.

E embora olhemos à frente, os naturais

movimentos dessa ótica nos mimam;

são as cidades que para nós se descortinam

e não as nossas rodas, que jamais

divisamos dos assentos confortáveis.

E lembro mesmo, dos tempos de menino,

quando marchava, olhando para os pés,

como as pedrinhas, na verdade estáveis,

se transformavam em risco pequenino,

como correndo sob meus sopés...

CÉUS MAGENTA III

Destarte, sempre foi nossa ilusão

ser o centro do mundo e tudo o mais

girar em torno de nós, nas siderais,

arbitrárias, mas fiéis constelações.

Porque, afinal, a Lua, em sua paixão,

é que gira sobre os prados terrenais;

quando um meteoro nos brota do ademais,

cai sobre a Terra em fúlgida atração.

Se a Lua e os meteoros nos rodeiam,

chegando ao ponto de se tornar cadentes,

a lógica nos diz que é igual o Sol

e que esses brilhos que as nuvens incendeiam

são os fulgores de corridas permanentes

a demarcar o alvorecer e o por-do-sol.

CÉUS MAGENTA IV

Desse modo, esse tal manto iridiado

que, sem dúvida, é escaneado pelo Sol,

é sangrado em torno a nós qual se um anzol

usasse a Terra para prender o ser amado.

Pois é ele que nos cerca, atribulado,

e não a Terra que busca seu farol;

o Sol de estio, em infernal crisol,

o Sol de inverno, em seu jeito de amuado.

Tal qual se Gaia lhe negasse um beijo

e então Hélios, por uns tempos, se afastasse,

na busca de outro beijo de Afrodite,

prateada Vênus, impante de desejo,

como se a vida terrestre ela invejasse

e o Sol a nos deixar assim incite...

CÉUS MAGENTA V

Assim é o Sol que à Terra arrasta a asa

e algumas vezes, até lhe abre algum vulcão;

enquanto a Lua, invejosa dessa ação,

maremotos faz surgir na mesma vasa.

Porque a Terra dos humanos é a casa,

e como ensinava a velha religião,

era o centro do Universo, no bordão

aristotélico que ao Tomismo abrasa.

E por que não deveria ser assim,

só porque o contrariam os cientistas?

Por milênios, assim pensou a humanidade

e só nos últimos séculos, enfim,

os astrônomos contrariam essas vistas,

como a troçar de nossa humana divindade!

CÉUS MAGENTA VI

Quando o crepúsculo se reveste de magenta,

de escarlate, de púrpura e carmim,

de solferino e de sanguíneo carmesim,

nessas mil cores que Apolo nos inventa

e que a paleta dos pintores ainda tenta

reproduzir, sem conseguir, enfim,

(a fotografia o pode mais, assim,

e o eletrônico fulgor além intenta)

nessas mil cores, o Sol se faz pavão

e em sua vaidade, é à Terra que seduz,

mais belo ainda quando vai embora,

seu espectro a solar suplicação

para que a Terra conserve mais sua luz,

sem outra noite a expulsá-lo para o outrora.

VAIDADE EMBORA I (31 DEZ 12)

Não sou melhor que os outros, afinal,

Mesmo que fuja à festa e à honraria,

Toda a vaidade alheia que acolhia

A pompa e a circunstância do irreal...

Minha vaidade é bem outro, mas real:

Selos e livros, discos à porfia,

Em nada expostos a qualquer um que me via,

Somente a um grupo seleto no total.

Minha vaidade está mais na coleção,

Com a qual satisfaço meus escravos:

Alguns que leem, outros que só escutam,

Ou têm prazer nessa acumulação

Que os “psicos” afirmam trazer cravos

De algum problema que mental reputam...

VAIDADE EMBORA II

E daí que considerem obsessão

Essa mania de guardar o que mais quero?

Não são pedaços de corpos que venero,

Nem corro atrás de maligna compulsão,

Salvo em meus versos de vasta multidão,

Essa manada de poeira que ainda gero,

Essas vastas brotações que nem espero

Venham a ser lidas em sua total constelação.

Elas me surgem, inesperadamente,

Frases sem fim que nem busco compor,

Mas que se espargem tal e qual um chafariz.

Mais que meus livros ou selos ou o frequente

Escutar de meus discos de valor

É esse jorro interno que nem quis...

VAIDADE EMBORA III

Porém que quero, tão logo me domina

Esse repuxo de baleia em sobressalto,

Passando a limpo alguns frutos do ressalto,

Da melhor forma que a gramática me ensina.

E não me espanta que a alguém mais atina

Que de controle mental eu seja falto.

Eu me sustento do chafariz no salto:

Que seu respingo a crítica então mina.

E reconheço que ao não fazer questão

De me enxergar impresso é igual vaidade:

Fico esperando que alguém o faça por mim.

Que ao ver, em parte, essa vasta produção,

Queira mostrá-la a mais vasta humanidade,

Ainda que eu mesmo não me esforce assim...