DAQUELA PAZ

então, ela me disse:

- eu vou, pode ser que eu não volte

e era mesmo certo:

a não volta

a revolta de não tentar

agora que eu nem mesmo sei de mim

busco-me nas pequenas coisas que se perderam

todos nós nos perdemos um dia

eu me perdi naquilo que não disse

eu me perdi por querer um mundo ilusório

agora estou na estante do passado

como quem destrói um sonho

e na parede aquele cara de braços abertos

sou eu

peço perdão, mesmo que de longe você não escute

sou frágil

quase tronco que se verga

com a força do vento

peço espaço para passar com meu lamento

agora que os dias são iguais

e no silêncio do quarto

eu tento ser melhor

só eu sei por onde começar

amar era uma promessa de salvação

então, por que nos perdemos

nisso que seria a solução?

agora sangro

e tudo escoa rapidamente

com o tempo, aprendemos como doer

não temos mais idade para sofrer

e cobrar do outro atenção

quando sinto o aperto

faço poemas

canções que jamais cantarei

afinal, não é isso que se espera

de quem está aqui para se construir?

agora, deixe-me ir

parto, sem itinerário definitivo

pode ser que amanhã eu nem esteja aqui

mas viver com você foi bom demais

pelo menos, um dia eu tive paz

Raul Franco
Enviado por Raul Franco em 19/02/2016
Código do texto: T5548410
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