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ERA O POETA

Há muito o rumor nas casinhas da rua íngreme daquelas plagas em torno às quais febris.
Nasceu tempos antes o poeta, e um alarido se estendeu.
O Sol contagiava os campos...A Lua aproximava os apaixonados...As estrelas fulguravam num céu anil e se espelhavam nas águas dos rios.
O verde das campinas sorria ao prado que cantava orquídeas, num donaire galante e de ternura. Toda aurora era bela, toda tarde era linda e cada crepúsculo trazia a saudade do sorriso das moças na praça em frente.
Lá, bem cedinho, saía por entre os arvoredos, na estrada de barro, com seu olhar terno e nele se enxergava o mundo como afora houvera jamais sido percebido.
Num dia desses se perdeu em seus ares alados, nas asas de uma águia adejante,  com seu fúlgidos, lânguidos e flamejantes olhos misteriosos de liberdade, transeunte dos céus coloridos.
Dali aplacou-se sentado, cansado daquela rotina angelical, lançou surdos e cinéreos, cimérios e soturnos suspiros de amor, e mais dele nunca mais se ouviu.
Dizem que se tornou brisa e voou pelas cidades do mundo e quando passava deixava  a poesia nas mãos de pessoas quais não conheceu. Quem era o poeta? Ah, não era o poeta! Era um cisne feliz em seu lago, era um lume que exultava calado, era a noite calada e taciturna, que segredava mistérios aos ventos, e os ventos que voavam nas brisas, deixavam-no cá, deixavam-no lá.
Aos poemas ele deu seu nome, e emprestou à poesia suas vozes de feliz.
Nunca mais se falou do poeta, que argüia contra as tristezas do mundo, que sorria sentado entre as rameiras, que falava às estrelas e beijava os mares; muito pouco deixou-se ali.
Dizem que morreu o poeta, numa dessas noites quaisquer. Dizem as palavras que ele ainda vive e que transforma as pequeninas coisas em lindos glaciais dezembros, em risos  de flores que em eflúvio exalam o lúgubre cheiro de terror.
Não! Não morreu o poeta. Apenas a carne mas não sua alma. Sua essência comigo deixou. E por isso vou dizendo até logo, tenho um lindo dia à minha frente, tenho estradas a percorrer, tenho navios nas águas dos mares, tenho sede do alvorecer. E ao mal que alvitrar-me em azíguo, trago sortes de universos sem fim.
Morreu? Morreu. Morreu o poeta, a brotar daquela ruazinha íngreme um alarido que se estendeu...Sim! Estendeu-se nu e vadio, não deixando-os, vento, brisa, mares, estrelas, não deixando-os vazios. Eu trago comigo um pouquinho da alma do poeta... Mas quem é o poeta?
Ah! O poeta já morreu...
jairomellis
Enviado por jairomellis em 24/10/2007
Reeditado em 11/01/2008
Código do texto: T707544

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Sobre o autor
jairomellis
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