Te adoeces-me

Te adoeces-me, como te adoeces-me

As pinturas parecem diferentes, há um rearranjo das antigas cores que costumava contemplar; mas não foram só as pinturas: as músicas soam agora com outras harmonias; mas não fora somente a música e a pintura, trate-se dos dias. Eles já não brilham com as cores de seus olhos.

Teus olhos reais, finitamente reais como as sensações que não possuo palavras; Trágicos, incertamente trágicos como o quebrar de espelhos que transferiam em meu corpo a tua imagem – Este, uma vez envolto em simbiose não poderia mais olhar a algo que não fosse teus olhos, e se olhas-me procurando teus olhos, estás fadadas a nunca poder enxergar.

Te adoeces-me, como quando dissestes a si que meu corpo era teu corpo; que me estendia como parte sua, como cuidador de tuas feridas – Tudo, absolutamente tudo certamente controlado, trágico, obsessivamente trágico como quando não (h)ouve outro corpo: Havia outro coração; o meu coração. E este não estava pronto quando ouviu-te gritar; meus olhos sangravam quando via como agias com o descontrole da situação, minha mente buscava preencher o espaço vazio que emergia nestas fendas enquanto me era anulada a existência – Fora quando percebi, o descontrole era tão insuportável porque elucidava a verdade que não podias escutar: Eu não era a extensão de seu corpo – Então adoeceras, sentira que o que partiu não foi a mim, mas sim uma parte sua.

“Narcisa olha o lago, tão apaixonada por tua própria imagem que anula as propriedades físicas do lago. O consome, e ao fazer isto, consome a si mesma, afogada em seu próprio lago. Não pode respirar e sequer sabe nadar, não era assim que Narcisa esperava: O lago não podia ser lago, tinha de ser a extensão de Narcisa.

Fora quando, já sem folego ela percebera, havia algo além dela nesse mundo; havia o impensável ser chamado Outro, e o Outro não podia ser algo se não Outro: O Lago não poderia ser outra coisa se não lago - Narcisa, ao perceber que não podia controlar tudo gritava enquanto se afogava: “Maldito Lago filho de uma puta, mentiu para mim. Eu confiei, me apaixonei por você; Tu adoeceste-me, te adoeces-me de você, mataste-me por amor”.

Mas Narcisa, não havia se apaixonado pelo lago, ela nem percebera que ele existia – Ela amava seu reflexo, e o lago podia refleti-la; refletir, mas não ser Narcisa – Dou a ela a ruptura, por isso maldito era o lago, maldito por que quis ser lago, e não narcisa.”

Nunca quis ver Narcisa adoecida, choro ainda todas as manhãs – Não pelo afogamento, mas por saber que nunca poderia perceber o lago.

O lago também chora, e quando os lagos choram,

as pinturas ficam

diferentes...

Gian Gonzales
Enviado por Gian Gonzales em 27/10/2022
Código do texto: T7637295
Classificação de conteúdo: seguro