MEU HOMEM*
®Lílian Maial

 
 
Meu homem são muitos:
são brancos, são negros,
são louros, morenos,
bem altos, baixinhos,
atletas, franzinos,
diplomatas, bandidos,
arrogantes, tímidos.

São reis, czares, imperadores,
ou vivem numa câmara de horrores.
Meus homens a mim pertencem
e obedecem cegamente,
cegos que estão de paixão!

São rudes, exalam o cheiro do campo,
da rocha mais dura, da flor mais pura,
da mão calejada da vida segura.
Também são gentis, de versos banais,

De cores pastéis, de óculos intelectuais.
Mas podem ser assassinos

dos sonhos de vida a dois,
comendo feijão com arroz
nos pratos feitos do amor.

Talvez preferisse os magos,
os esotéricos, os ciganos,
fugindo ao amanhecer dos planos,
sem rumo, nem barco, nem futuro,
vivendo um momento obscuro,
buscando nos astros seu guia.
Não é todo dia que se encontra comigo,

mas sente em mim um perfeito abrigo,
onde recostar a cabeça e dormir.

Não! Meu homem é fera primitiva,
que monta e cavalga a mordidas,
que esfrega a barba na barriga
e provoca espasmos na garganta!
Me puxa os cabelos, me levanta,

me senta em seu colo suado,
me prova, me acende, me bate,
me arranca urros em combate,
me vence e me deixa vencer.
 
Grande engano! Meu homem é cavaleiro,

de espora e armadura de prata,
cavalo branco, despontando na mata.
Me apanha no galope e some,
me consome, com pão e vinho,
me alisa, me faz carinho,
faz de meu corpo um caminho
e, de meu gozo, a chegada.

Meus homens são todos e um só,
de quem vim da costela e pra onde vou pó,
dividindo meu leito,
multiplicando meu canto,
aos quatro cantos do mundo,
pra depois, num segundo,
explodir em lágrimas de adeus,
ou em jatos de amor,
e, seja lá como for,
é só meu.
 
 
******
 
*do livro "Enfim, renasci!" - de julho de 2000