O ROUBO DO COQUEIRO

Minha mãe já estava doente

E passava sempre umas semanas aqui.

Eram dias, calmos, mas felizes

E ela adorava a tudo e a todos daqui.

Tínhamos hora pra tudo, sempre seguida à risca

Acordar, tomar café, almoço, janta... Todos corretos

Pessoas idosas e debilitadas precisam dessa rotina.

E eu as cumpria com dedicação e alegria!

Após o almoço assistíamos todos os jornais

Que a televisão transmitia (e como ela gostava!).

As duas horas íamos para a cozinha

E lá o seu cafezinho da tarde eu preparava.

Ela tinha um lugar cativo, em frente a porta da cozinha.

E enquanto eu preparava o seu café, uma visita recebíamos.

- Olha, ele está chegando, dizia minha mãe com olhos a brilhar

E de longe já se ouvia o bem-te-vi a cantar!

Ele se colocava num varal bem em frente à porta

E se balançava soltando seu canto estridente

Nós ficávamos quietinhas, ouvindo-o alegremente!

Em algumas tarde ele nos presenteava com uma semente de coquinho...

Olhava fixo para nossas caras e lançava a semente no chão

Começava então toda aquela sua algazarra

E nos encantava, cantando a pleno pulmão!

Um dia enterrei a semente, num vasinho pequeno

Que estava vazio, mas confesso que o fiz mecanicamente

Sem esperar que aquela semente germinasse

E que algo de lá nascesse!

E a semente vingou, logo mostrando um brotinho

Não me contive de alegria e cuidei dela com carinho!

E fui trocando de vasinho, sempre obedecendo seu ritmo.

Um dia notei que aquele espaço não era suficiente

Conversei então com a vizinha que mora em frente

E o plantamos em sua calçada, onde ele reinava

Agora digno de ser o nosso rei coqueiro!

Só que nesse espaço de tempo, eu perdi a minha mãe

Ela foi morar no céu e na lembrança ficou...

Mas não só na lembrança, ficou na vida do coqueiro

Que lhe foi presenteado e com cuidado germinou...

Mas de cinco anos se passaram e aquela semente

Agora já um “menino” com mais de um metro...

Folhas largas, viçosas, já se mostra forte, altivo

Um magnífico exemplar de coqueiro.

Todo dia, ao acordar me deparo com a visão

Da vida em todo seu esplendor e força

Na magia que é a transformação

De algo tão pequeno em energia da continuação.

O mistério da vida, que o Criador nos proporcionou!

Mas dias atrás, oh dor de perda que senti

A malvadeza de uma pessoa doente

Roubou o coqueiro que era mais que coqueiro

Era o alento da saudade que mora em mim!

Foi-se o presente de minha mãe e a alegria que eu vivi

De ter dado vida a ele atrelando- a à minha mãe.

Foi-se a esperança de vê-lo no auge frutificando

Ficando a descrença no ser humano e no amanhã!

Santo André, 06.09.2016 – 17 h

Enloucrescida
Enviado por Enloucrescida em 06/09/2016
Código do texto: T5752413
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