ESQUECIMENTO

Sou esquecida...

Eu mesma me esqueci...

Nunca mais me encontrei...

Sabe porque?

Porque o tempo não devolve mais o que levou...

Tampouco revela o segredo...

Segredo?

É...O segredo de onde deixou...

Sê, deixou...

Sê, desmaterializou...

Quando lembrada eu fujo...

Se não funciona eu finjo...

Mas nunca sou o que sinto...

Porque?

Simplesmente porque fujo dos que não podem compreender...

E até mesmo dos que acham que podem compreeder...

Iludidos...

Cegos...

Surdos...

Meus gemidos ecoam...

Ressoam estridentemente nos espaços do universo...

E a minha volta o silêncio perpetua...

Lágrimas...

Mais lágrimas escorrem do meu ser, num vermelho escarlate...

Caem em solos áridos...

Em pisos firmes...

Em lajes que reproduzem um eco ensurdecedor...

E tudo permanece mudo e limpo...

Sem som...

Sem mancha...

Sou esquecida...

Mesmo quando me faço um tsunami...

Um vulcão em erupção...

Um terremoto devastador...

Ainda assim, não abalo estruturas...

Não penetro os corações...

Não sou vista...

Nem sentida...

Tampouco requisitada...

Começo a esquecer tudo...

Esquecer que tenho um corpo físico...

Uma alma... Um espírito...

Acho que estou morta...

Perdi o som de minha voz...

Dos meus sorrisos...

Perdi não sei onde o meu EU... O meu SER...

O esquecimento se faz vivo numa solidão mordaz...

Frívola...Degenerativa...

Ainda hoje fujo e nunca alcanço...

O que?

A liberdade de me ter novamente...

Concluo que a vida é uma prisão constante...

Sou prisioneira do tempo...

Dos acontecimentos...

De suas causas e consequências irreparadoras...

Que acorrentam cada vez mais...

Que mutilam...

Sufocam...

E que perdem-se no esquecimento...

Esqueci de que sou esquecida, por um completo esquecimento...

Esqueço de ter reações...

E quando tento, sou esquecida por reações do meu esquecimento...

Alguns parecem perceber...

Mas eu os coloco no esquecimento...

Logo que percebo que me cutucam em minhas nuances...

Do que o tempo ainda não levou...

Mas está em tempos em levar...

Esqueci do passado...

Esqueço do futuro...

E sou esquecida no presente...

Eis o retrato da solidão humana...

Da miséria do caos...

Do vazio existencial que se camufla num rosto...

Aparentemente normal...Casual...

Sem máculas...

Mas a solidão é ferida de suor gotejante...

De febre latejante...

De sede e fome necrosadas pela apatia de ter a consciência...

De ser morta ainda em vida...

De fenecer do esquecimento...

Ainda tendo lampejos...

De saber que se é completamente esquecida...

De um nada que é um tudo esquecido na SOLIDÃO....