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"PRELÚDIOS" - A PROSTITUTA -

                             PRELÚDIO Nº. 1

                         FEZ-SE PROSTITUTA

Era de um desejo que por todo corpo ardia,
Uma chama de paixão louca e desvairada,
Era de prazer que seu corpo em êxtase vivia,
Até exausta-lo na brisa suave da madrugada.

Somente a noite acalentava seus estertores,
O rosto disforme naquela luz pálida e fria,
Mostrava lascívia, corpo em chamas, e dores,
E se fartava, gozava. Beijava em louca orgia.

E só assim saciava os seus mais torpes desejos,
A sua carência delatora de uma busca sem nexo;
Pensava nele, morria por ele, buscava seus beijos.
Não o tinha. E o tinha sempre em furioso sexo.

Era triste, amarga, e da vida se vingava em fúria,
Se entregava, deixava-se levar, deixava-se possuir.
Para ganhar, criava orgasmos, iludia, sempre a fingir,
Fazia alguém feliz, saciado. Essa era a sua história.

E assim ela levava a vida, trocando o dia pela noite,
Nos becos sórdidos, nas camas em que não queria,
Bebendo uma bebida forte que era como um açoite,
E que a deixava tonta, sem imaginar porque o fazia.

E tudo isso, porque não foi um dia, compreendida,
A vida lhe colocou ali, naquela triste penitência,
Não tinha nada, não tinha seu amor, não tinha vida,
Que um dia partiu, sem nada dizer, e ela morria.

E noites por noites, uma roda de moinho rodando,
Sempre no mesmo lugar, sem nunca poder sair dali,
Condenada a viver sempre aos outros se entregando,
Ela que era dele. Ele sem saber, insano; a deixou ruir.


                             PRELÚDIO Nº. 2

                     SAINDO PARA O TRABALHO

Estava ali, parada, se olhando na frente do espelho,
Passava pelos lábios um batom vivo, vermelho,
O vestido decotado, de alças, de um vivo prateado,
Os sapatos de salto alto davam vida ao seu retrato.

Os cabelos negros, ondulados, foram loiros ela sabia,
Os olhos pintados, coloridos, completavam a moldura,
Daquela mulher, que já tinha sido mulher um dia,
E hoje, era apenas um espectro gritante da clausura.

Não importavam os borrões. Quem se importava?
Era uma máscara. Pintava escondendo as desilusões.
Era do mundo, era da vida. Puta. Ninguém a amava,
Mesmo tendo muitos homens. Amantes aos borbotões.

Ali se preparava para mais uma jornada de labuta,
Fecha a porta de seu cubículo, vai para seu mundo,
Sai, e estava pronta para ir ter todos os vagabundos,
Que se perderam também nas rodas da vida incerta.

Ao por os pés na rua, faceira, ela se transformava.
E o rebolar das ancas no salto alto, ela assim forçava,
Passos sensuais, sorrisos largos e lânguidos acenos,
Aos prováveis clientes: - alguns chamados obscenos.

Então chega ao seu local de trabalho sorridente,
Mostrando aos machos uma dentadura amarelada,
Que o desleixo de anos deixaram por fim condenada,
Do que um dia tinha sido uns brancos e alvos dentes.

Senta-se à mesa elegante, cruza as pernas, e aguarda,
Aquele homem que porventura deverá se aproximar,
Chama por Deus pedindo a Ele que quem se chegar,
Seja pelo menos homem. Um macho digno de transar.


                              PRELÚDIO Nº. 3

                               OS CLIENTES

Aproxima-se à mesa um negro descomunal,
Deus do ébano avesso, perdido na noite desigual,
Senta-se e logo lhe oferece uma bebida quente,
E sorrindo, pergunta-lhe quanto custa à noite.

Ela lhe diz que a noite inteira era muito dinheiro,
Que na noite tinha dez, quinze, até vinte clientes,
De todos os tipos, classes, e que tinha de ser ligeiro,
Porque não tinha como ficar com um só amante.

E assim acertados, ajustados no preço e tempo,
Vão a um quarto sujo, se assim podia-se chamar,
Aquilo de quarto. Era uma pocilga, aquele lugar,
Onde ela se deitaria e deixaria ele ter seu espasmo.

Tira a roupa, fica nua, abre as pernas falsamente,
E o negro, nu, a deixa assustada, era descomunal,
Ia sofrer, porque receber aquilo tudo fatalmente,
Deixaria moída, arrasada. Mas era u’a profissional.

E o negro vem e se aninha entre suas pernas longas,
Longo era o que ele possuía e que iria entrar nela,
Era grosso, ia doer, mas doía-lhe mais que estocadas,
Era ter de agüentar sem querer. Essa era a vida dela.

E recebe dentro de si aquela seiva quente, nojenta.
Mas é forte, enoja-se, sente náuseas, é da profissão,
Dali tira o seu sustento esdrúxulo. Ela agüenta,
Não tem opção; a vida lhe deu essa triste missão.

Recebe o seu dinheiro. Veste-se. Volta ao batente,
Esperando, numa busca ansiosa, por mais um cliente.
Essa noite promete, e realmente ao raiar do dia,
Na madrugada foram muitos. Quantos? Não sabia.


                              PRELÚDIO Nº. 4
                             
                              MAIS CLIENTES

Mais uma noite chega, está de volta à labuta ingrata.
A mesma mesa, o mesmo ponto, as mesmas caras,
A bebida forte, o cigarro amargo, o riso que engasga,
O baseado fumado, o pó aspirado. O tráfico não para.

O tóxico encontra ambiente para se propagar veloz,
Tem clientes que lhe consumem ávido e feroz.
Falsas ilusões a droga produz. Um anestésico fatal.
Do que ganha, uma parte vai de encontro a esse mal.

E de quando em vez, aparece aquele cliente especial,
Vão para o “muquifo”, lá ele “aperta” um fininho,
Antes do ato fumam e ficam doidões. Clima sideral,
A mente voa, ela flutua, para ele lhe dá até um carinho.

Se ele quiser pagar, paga, se não, é só dar um cigarro,
Para ela continuar na “lombra” e mais tarde fumar,
Fazer a cabeça, para conseguir ao fim de noite chegar,
Porque ainda vai ter de encarar esse clima bizarro.

Fim de noite. Retorna cansada. Longo percurso de volta,
Chega em casa, cansada, um trapo, entra e fecha a porta,
Tira a roupa se joga na cama, mas não consegue dormir,
Pensa a vida, pensa nos pais e no muito que ainda vai vir.

Estranho... Nunca mais havia pensado nos seus pais...
Da sua cidadezinha nem se lembrava, nem deles mais.
Lá, era uma vida calma, mas a ilusão da cidade grande,
A fez prostituta. Voltar? Como? Agora seria muito tarde.

                        PRELÚDIO Nº. 5

                              O FIM

Mais uma noite. Um final de semana que promete.
Os afazeres, os mesmos, mas aparece mais gente,
Ela ganha mais, tem mais clientes, o clima é de festa,
Que o final de semana sempre alegre empresta.

Ao chegar... Estranho... Sente na carne um leve arrepio
Algo mexe com ela. A noite é fresca, e não faz frio,
Mas logo um conhaque duplo desfaz os seus temores
E ri, um riso farto, divulgando prazer, os seus favores.

Um cliente, mais outro, uma bebida e mais outra,
O riso afrouxa, os trejeitos, os abraços, escandaliza...
A música, o rodopiar a faz ficar cada vez mais louca...
E a noite entrona a sua rainha Puta... A sua Monaliza...

E eis que de repente ouve-se bem perto um estampido.
Tiros, tiros. Louca correria. Caem-se mesas e cadeiras,
Procuram todos se protegerem do perigo ali surgido,
Ela procura se esconder...  E sente no peito dor ligeira.

A rouca sirene estridente da policia logo se faz ouvir;
Ela coloca a mão no peito e sente uma fisgada de dor,
Logo se torna mais forte, tenta gritar, vem o pavor,
E dela se apodera. Alguém grita: tem uma baleada aqui!!!

A vista começa a escurecer, ela ouve vozes ao longe,
Vultos disformes, tenta falar, respirar e não consegue,
Chora. A dor já não sente, apenas um frio cortante,
Sente que morre.... Deus! Morrer assim? Oh vida infame.

A mulher morreu! Gritam. Mataram-na quem teria?
A policia o bandido? Quem foi? Foi uma bala perdida.
Nada se pode fazer... Agora no rabecão era recolhida.
A enterrá-la quem? A ultima caridade, quem lhe faria?

Morrera Puta indigente, porque ninguém lha conhecia.
De onde era a mulher, quem ela era, como se chamava?
Apenas um nome. Apenas uma Puta... Apenas Maria...
Como tantas outras Marias, que a vida ingrata enganara.

Morreu prostituta, morreu a bala, fazendo favores,
Vendendo o corpo, fantasias, vendendo amores,
Saciando desejos, aos poucos também morrendo.
Era da vida. Era do mundo. Era puta. Vivera sofrendo.

Mas Cristo, que amou, protegeu e salvou a Madalena,
Também perdoará a Puta Maria, essa Maria, só Maria,
Ele lhe dará o conforto necessário de quem pena,
E a essa prostituta, também Jesus Cristo salvaria.
Lúcio Astrê
Enviado por Lúcio Astrê em 26/09/2007
Reeditado em 26/09/2007
Código do texto: T669448

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Sobre o autor
Lúcio Astrê
Euclides da Cunha - Bahia - Brasil, 60 anos
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Lúcio Astrê