isolamento

pisco os olhos insones, o peso das pestanas

o sol arde-me à pele, a tarde de mais um dia

penso em tardes como esta, há horas e dias

em que tu estavas ao redor, e eu era alguém

alguém que sentia na epiderme a concretude

do presente inteiro, tempo, espaço, dimensões

bastava uma carícia tua para meu corpo ser corpo

e não um amontoado vivo que de tudo rememora

rememorações, revirar a memória extensa

como quem busca na terra a fonte dos dias e noites

seus significados, distorções e detalhes

deparo-me com reminiscências até então desimportantes

a dourarem como pedra, à luz do pensamento

penso naquilo que tu esqueceras, naquilo que tu lembras

mas que talvez não lembre que lembras, na rotina do dia

percebo as faces das moedas que não contei

preencho onde não estive, extrapolo meus reinos

para além dos teus domínios, pois a mente é Ícaro

queimo-me em meus próprios sóis, armadilhas soltas

soltas, sem rédeas, como o que sinto ao peito

todos os dias, inevitavelmente, no parar das coisas

como quando sento-me à pedra da escada, o sol

o sol a consumir-me inteira, as pestanas, a alma

a ferver os papeis das memórias, destilação forçada

a extrair a essência deste amor puro, enclausurado

no corpo, na escada, no quarto, na rua, no bairro

incapaz de correr a corrida que tantas vezes corri

sobre os paralelepípedos da tua rua

e pisco, os olhos insones, o peso das pestanas

o peso absurdo da insônia nas pestanas

queria apenas parar de pensar, rememorar

guardar teus braços ao meu redor

e retomar o corpo, meu real corpo, aquele que tu trazes

quando acaricia minha carne.

Zéfiro Alves
Enviado por Zéfiro Alves em 10/05/2020
Reeditado em 10/05/2020
Código do texto: T6943614
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