VI O INFERNO E CHEGUEI PERTO DO CÉU

Um cigarro acesso anunciava

O desolar da esperança

Na incerteza devastadora

Que cerca todo novo amanhecer.

O amor é uma sofrível lembrança.

Na vitrola, Billie Holiday

Valorizava a caustica solidão,

Encurtando a vida apenada.

Senti uma rajada de vento frio.

O céu estava tingido de negro.

Poderia ser o apocalipse final.,

Meu derradeiro e fatídico embate.

Acendi mais um cigarro.

Minha aura estava enegrecendo.

Não compreendi a realidade,

Que tinha nuances de sonho

E me transportava ao pesadelo.

Um pergaminho tosco envelhecido,

Relatava todos os meus pecados.

A atmosfera era tétrica e aterradora.

O inferno estava em procissão.

Centenas de entidades desfiguradas

Perfaziam uma nuvem negra.

O mundo tornou-se trevas.

Em bando, demônios cruzaram o ar,

Numa intimidação macabra.

Indiferente, espiei o inferno

Se preparar para o iminente ataque.

Entornei o último gole do fel,

Pronto para o debate final,

Ou, um suicídio anunciado.

O mal se avantajou ainda mais

Com o cintilar da afiada foice

Que pairava no ar, em guarda.

De repente, num faiscar milagroso,

Milhões de anjos iluminaram o limbo.

Era uma brancura celestial

De inominável e estonteante pureza.

Uivos e gritos, a batalha fora feroz.

O enxofre e a podridão quedaram,

Batendo em retirada para o abismo.

Acendi o último cigarro e baforei.

Os anjos me cumprimentaram

Num convidativo bater de asas.

Vi o inferno e cheguei perto do céu.

Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 29/06/2005
Código do texto: T29190