ALCORÃO I-XII

ALCORÃO

William Lagos, 2009

ALCORÃO I (Al-Kumrah)

As rugas do papel tudo comportam,

desde o tempo em que foram proteção

do livro que carrego, em precaução,

para o lugar a que deveres me reportam.

Deste modo, quando versos se me aportam,

essa folha enrugada por tração

aceita a tinta de meu coração

e recolhe os sentimentos que me importam.

Houve um tempo em que escreveram o Alcorão,

no meio de um deserto, onde as areias

não permitiam a busca de papel...

Usaram pedras, couros e o cascão

mais grosso das palmeiras e essas teias

criaram textos do mais doce mel...

ALCORÃO II

De tal modo, eu não posso me queixar

das rugas e rasgões deste papel,

o meu espaço é bem menos cruel

que o dos escribas, em seu labutar,

para as palavras do Profeta registrar:

o Mensageiro Iletrado, cujo anel

o ligava à divindade, em seu rebel

anseio de este mundo transformar.

Era sua tinta fuligem e carvão,

misturada das tâmaras ao suco,

gravado a custo em raro pergaminho,

mas alcançando longa duração

nessas suratas em que também me educo,

embora, às vezes, firam como espinho.

ALCORÃO III

Também Moisés usou tábuas estranhas,

feitas de pedra, ao contrário de madeira,

nas quais gravou a sua lei primeira,

que envolveu os judeus em suas peanhas.

Quebrada a pedra, por alheias manhas,

que afastaram o povo de sua esteira,

ao Sinai retornou, por derradeira

versão das leis, da Divindade ganhas.

Não precisei de malho nem cinzel

para esculpir na pedra minhas ideias,

fracas que sejam, em comparação...

Retalhos sempre tenho de papel,

em que transcrevo as fracas odisseias,

cujo périplo cortou-me o coração...

ALCORÃO IV

Buddha foi outro, pois nada escreveu,

e nem sequer ditou a seus fieis;

fizeram da memória os seus quarteis:

sabe-se lá o quanto se esqueceu...

Depois... Siddharta ao Nirvana se moveu,

sem deixar após si quaisquer papeis,

sem promulgar ao mundo quaisquer leis,

sorrindo ao meditar no sonho seu...

Não precisei guardar em minha memória

mil preceitos de luz e de ascetismo:

sempre encontrei lugar para escrever...

Não ascendi aos páramos da glória,

nem escorri ao fundo de um abismo,

tampouco sei o que irá sobreviver...

ALCORÃO V

Não era um iletrado o carpinteiro

Jesus de Nazaré, que alguma vez

escreveu, sobre a areia e sobre a grês,

algum preceito, que se apagou ligeiro...

Seus discípulos redigiram, por inteiro,

apenas trechos dos sermões que fez

e não se saberá quanto refez

a Igreja, no Evangelho derradeiro...

Tampouco posso ter a pretensão

de que durem para sempre tantos versos

quantos compus ao longo destes anos...

Somente me alivia o coração

expandir-me em sentimentos tão diversos

quanto diversos os corações humanos...

ALCORÃO VI

Dizem que Jethro é que ensinou Moisés,

da boca para o ouvido, lentamente,

à beira da fogueira, brandamente,

sabedoria ofertada de través...

Ele escutava o sogro; e a seus pés

sentava Séfora, esposa complacente,

que talvez fosse intérprete inocente

desses princípios das mais antigas fés.

Quanto a mim, mal me tenho por profeta

e nem sequer aceito a obrigação

de acreditar nos versos que escrevi...

Apenas sigo minha função de esteta

e, quando alguém me pede explicação,

eu lhe respondo: "Eu só trabalho aqui..."

ALCORÃO VII

Alguns dizem que Amenhotep, o faraó

foi o primeiro a sonhar monoteísmo:

ele adorava o Sol, desde o alto abismo,

a percorrer seus caminhos, sempre só.

muito mais amplos que os vales deste pó

que a Terra forma, em seu magnetismo:

este era um deus solar; e o profetismo

de Amenófis foi rasgado, sem mais dó.

Bem sei que algo do que disse te ofendeu,

mas nunca fui imperador, nem rei,

bem menos importância há no que digo...

Mas foi meu coração que te escreveu

e parte de meu cérebro eu te dei,

nestas palavras de sabor antigo...

ALCORÃO VIII

Outros afirmam ter sido Zoroastro,

em sua concepção maniqueísta,

sempre acoimado de ser um dualista,

que viu no fogo o símbolo do astro.

Porém ergueu primeiro o monoteísta mastro,

em que era puro quanto alcança a vista...

Ahura-Mazda tudo reconquista

e Ahriman só da balança é o lastro.

Também oscilo por entre o bem e o mal,

mas não chego a afirmar que o bem que quero

eu não pratique. Pois faço o que é preciso...

Pecar é trabalhoso demais e, no final,

é por preguiça que no bem espero,

bem mais por tédio que por indeciso.

ALCORÃO IX

E que dizer da maioria dos profetas,

cujos feitos conservou a tradição?

Até que ponto gravaram sua oração

e até que ponto continuam secretas

suas histórias deslumbrantes e incompletas,

para contar aos netos, na intenção

de os preceitos transmitir da religião

ou da moral impressionar as metas?

Pois eu... Não intenciono edificar ninguém:

apenas traço linhas diletantes,

movido por capricho ou por paixão...

Mas, se servirem de exemplo para alguém,

benditas sejam as vozes inconstantes,

que se propagam por meu coração!

ALCORÃO X

E que dizer de Apolodoro de Tiana,

que muitos dizem ser o crístico modelo?

A barba longa, envolta no cabelo

e as longas vestes que a tradição proclama?

Porém, a religião greco-romana

já seu lugar cedia ao novo apelo

e os homens se curvavam, com desvelo:

a voz de Apolodoro perde a chama...

Só a imagem ficou, segundo afirmam:

ninguém lembrava o rosto de Jesus,

que foi assim moldado por artistas...

Meus versos, de per si, nada confundam:

não são raios de sombra e nem de luz,

mas somente de mil vozes as conquistas...

ALCORÃO XI

E, pela vida, milhares de filósofos,

astrólogos, poetas, escritores,

teólogos, cientistas, prosadores,

teóricos, psiquiatras e sociólogos

deixaram seus escritos e monólogos:

escritos vagos de livres-pensadores,

escritos simples de pesquisadores,

ou de políticos avessos a diálogos...

Excertos dos filósofos mais velhos,

rebotalhos de jovens apressados,

que acabam renegando tal bobagem...

Todos ansiosos para dar conselhos...

E eu, já li tudo, nos anos repassados,

de cada um sondando sua miragem.

ALCORÃO XII

Não é só por vaidade que te escrevo:

se assim o fora, tentaria publicar,

mas não faço questão de propagar

minhas ideias; e nem sei se o devo.

São meus fantasmas, que na mente cevo:

prefiro outros preceitos aceitar,

nada de novo tenho a acrescentar,

salvo o meu jeito, que em sonetos levo.

E fico a matutar, em tal ensejo,

se eu mesmo não devia deletar,

os milhares de rascunhos desta mão

ou desta boca, que prefere o beijo

do que o vazio do seu filosofar,

para esconder a dor no coração...

William Lagos
Enviado por William Lagos em 08/05/2011
Código do texto: T2956710
Copyright © 2011. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.