PROPRIEDADE NOMINAL

Ontem a posse

Na pele marcada com ferro brasante

Hoje a letra carregada

No registro negante

Assinatura do sequestro escravizante

Minha nascente-nação no tempo se perdeu

Eu era Kayodê, Abayomi,

Tumaini, Lumumba, Olakundê...

Eu era povo Angola, Congo, Ibo, Hauçá,

Benguela, Umbundo, Massai, Monjolo,

Eu era povo Cabinda, Iorubá, Quimbundo,

Mina, Quiloa, Xhosa, Rebolo...

Hoje sou reticências

Sou xis

Sou ypsilon

Sou dabliu

Não tenho pátria

Sou visto como pária

Sou ponto de interrogação

Sou clã queimado em pregões

Linhagem baralhada em divisões

Identidade rasgada em leilões

Espólio de guerras tribais

Resíduo de lote que alguém comprou

Resíduo de lote que alguém vendeu

Feito coisa

Feito bibelô

Feito bicho

Feito máquina

Feito peça

Assim tratado fui

Assim mutilado sou

Se muito sou bandeira de congados

Sou amada escola em carnaval

Sou nação festeira com muitos nomes

Nas capoeiras mestre sou em muitas rodas

Nas peladas ganho muitos apelidos

Reduzido a negro

Reduzido a moreno

Reduzido a mulato

Reduzido a pardo

Reduzido a cafuzo

Reduzido a confuso

Constantemente sou

Sobrevivo e por baixo vivo

Com pronome possessivo

Da, das, de, do, dos

Sem passes relevantes

Do mundo corado devo ser varrido

Nasci no eito colonial

Fui liberto com pena imperial

Sem título algum

Cólico somente herdei católico nome e prenome:

Antônio José, Marcos Tadeu,

João Aparecido, Paulo Mateus,

Lucas Benedito, Cristóvão Sebastião,

Francisco Jeremias, Pedro Jesus...

E do senhor dos meus antepassados

Estuprador e feitor dos meus bisavós

Sangue do meu sangue saqueados

Pelo paraíso de um Deus

Sem pompa nem trompa

Trago sua garra cartorial no sobrenome:

Alcântara, Barreto, Camargo,

Felix, Lopes, Pereira,

Santos, Silva, Souza, Vieira...

Sem cidadania

Sem coroa

Sem direito

Sem herança

Sem indenização

Sem passaporte

Sem reparação

Sem brilho nenhum

Oubi Inaê Kibuko, Cidade Tiradentes para o mundo, junho/2007, submetido a revisões.