AOS POUCOS

Aos poucos ela depositou sua pousada

Devagar seguiu caminhos pouco trilhados

Acomodou-se onde não devia

e lentamente produziu veneno.

Aos poucos ela foi arrancando voz e usurpando a arte da comunicação

Sacudiu e desequilibrou nervos

Sugou energias e secou a pele

Intoxicou cabelos e forjou mal-estar

Aos poucos uma luta tácita teve início

Talheres foram separados, toalhas divididas, camas repartidas

a coragem e a fé cederam lugar ao medo, a emoção em descontrole e a oração diletante

Deus foi convocado para a guerra.

Aos poucos a batalha foi intensificada

Muitos foram convidados, poucos compareceram

A inimiga, antes velada e covarde, deixou pistas e imagens

Era tarde para Deus, para os bajuladores, amigos e falsos homens de branco que se acovardaram no andar frio da infantaria

A artilharia da saúde, a cavalaria da fé e a inteligência antes vigorosa dos generais cederam aos inteligentes, perversos e sádicos ataques da inimiga.

Aos poucos ela se alojou

Fez sua casa e ramificações

Estudou os passos da inimiga e preparou a investida

Sugou a seiva da liberdade, do belo e da mansidão.

Aos poucos, cinicamente, silenciosamente e amargamente roubou o brilho da vida

Enganou Deus, aos santos, a mim, a ela.

Escondida, secou a alma, destruiu o corpo, calou as orações e desconfigurou os fortes e lindos traços do rosto.

Com dor, forjou lutas químicas

Avançou no terreno sorrateiramente e atingiu pelotões avançados

Macabra, leviana e bem aparelhada jogou veneno e bombas de desespero aos que estavam por perto

não respeitou direitos, seguiu maltratando, torturando e queimando inimigos

Aos poucos ela foi cedendo

Perdendo esperanças e forças

Sentiu remorso, culpa, amor e saudades

Atormentada sofreu e, lentamente, cansou

Aos poucos pediu pela vida

Aos poucos perdeu a resistência e, com escassas palavras, buscou a despedida

Aos poucos ela venceu e ela fechou os belos, profundos e brilhantes olhos.

Aos poucos... ela se foi...

Lúcio Alves de Barros (poesia publicada no livro BARROS, Lúcio Alves de & VILELA, Antônio Henrique. Das emoções frágeis e efêmeras. Belo Horizonte: Ed. ASA, 2006. p. 41.)