Minha Ilíada

Deixe-me sonhar acordado,

guiar minha bicicleta por um caminho de curvas,

rodopiando expectativas perdidas,

ocupando minha mente com paisagens passageiras,

deixando o vento desarrumar minhas idéias,

olhando relógios atrasados e celulares adiantados,

finja que me entende do entardecer ao anoitecer,

diga que poderemos rir de piadas jamais contadas,

embalados pela música dos alto-falantes da praça,

seremos dois loucos agitando bandeiras sem ideologias...

.

Solte-me no ar cinza do concreto armado,

vou pular nas faixas de trânsito formando um jogo urbano,

subirei os arranha-céus com asas de nuvens de algodão,

desenhando em cada quadra os delírios da meia-noite,

ronronando como um gato atrás de um céu estrelado,

empilhando cartas em uma mesa de pôquer sem apostadores,

proclame que seremos mandatários de um reino distante,

coroados por rubis caindo em uma chuva de mangás,

cantaremos hinos de uma nação escondida sem qualquer poder...