Amortizar

importa que eu morra agora

com a língua de fogo das palavras

em candelabros de velório

lumes solitários

chamando sombras cabisbaixas

às paredes já desgastadas de solidão

que não sintam falta das cidades

fantasmas dos meus olhos

nem dos dedos árticos da consciência

elidindo cores escamosas

das mutações dos vãos

que obliteram sentidos

pra instaurar ilusões.

importa que meu túmulo

permaneça de boca aberta

surpreendido com o passar do tempo

sem dolências sobre meu cadáver

estirado numa erma rua

de um poema com a lixarada

já a meio voo roubando asas do vento

largando-me num ângulo de esquecimento

importa que o poema deixe a rua poeirenta

sempre de boca aberta

expectando desavisado viajante

se deparando

com meu falecimento indigente

importa que eu morra agora

em surdina e abruptamente

com um monte de palavras

carcomendo a caducidade

da mente

MarySSantos
Enviado por MarySSantos em 07/07/2015
Código do texto: T5302679
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