Preciso de  razoável destreza 
com verbos
Principalmente os mais difíceis
Como correr e corrigir

Preciso de razoável destreza
com pronomes
principalmente 
os de tratamento

Nâo chame o papa como se fosse reitor
E nem o reitor como se fosse cônego...
O erro nas hierarquias
fazem desabar escadas.

O degrau é a metáfora 
do jogo de poder

Preciso de destreza
Mas nasci
geneticamente desajeitada
grande demais
pernas longelíneas
braços longos
ombros largos para rugby

No mapa da cidade
me desloco
como um soldado em marcha

Miro o alvo
e atiro,
sem perguntar.
Meus passos são dardos
ao infinito.
Perdidos em caminhos
laboriosos.

Foram abolidas expressões
como: com licença,
por favor...
Cadê a civilização?
Não, a egípcia.

Vivemos a truculência
intrínseca
de palavras mínimas, 
instantâneas
e de sentimentos
retardatários.
Mas íntimos e afiados.

Vivemos entre farpas
de olhares ríspidos
de críticas cáusticas,
de sarcasmo cirúrgico...

Limamos consciência
Como lixamos unhas.
Como costuramos bainhas.

Limpamos culpa
com a sanitária ilusória
de que somos vítimas
das circunstâncias...

Ainda preciso de destreza.
As palavras na camarinha
semântica
fazem dormir os reais significados.

Tudo que nos resta
são significantes
aturdidos pelos ventos
e tempestades.

Destreza.
Mãos ágeis e habilidosas
Tecem uma história com
palavras e gestos.
Com imagens e sons.
Com cores e luzes.
Com silêncio e poesia.

Tenho a esquerdeza
do lirismo bêbado e 
infantil.
E brinco de amarelinha
sem nunca alcançar o céu.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 12/08/2016
Reeditado em 12/08/2016
Código do texto: T5726288
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