De Lâmpadas e Abajures

Eu vi dois abajures em uma vitrina. Entrei na loja e solicitei à menina que estava disponível para atender e me demonstrar o que eu queria ver: o funcionamento dos dois para escolher entre eles o que melhor se adequasse à minha necessidade e melhor iluminasse o ambiente novo onde agora iria viver. Ela gentilmente me perguntou qual preferia. Então eu apontei para os dois que eu escolhera: um era bem alto, todo torneado em madeira que eu identifiquei como sendo cerejeira; o outro era um abajurzinho comum, baixinho, desses feitos em arame pintado, fosquinho. Muito gentil ela me trouxe os dois para testar e arranjou uma extensão com tomadas para ligar. Ela, no seu papel de vendedora, queria me “empurrar” o abajurzão grande que até fios dourados tinha e cujo preço era muito maior do que a outra pecinha. Eu pensei: - “Na verdade ela se preocupava era com a comissão que iria levar”. Mas eu, puta-velha nos comércios do bairro, resisti e afirmei que primeiro queria testar os dois, e pedi. Quando ela os ligou, eu observei que o abajur menor, o comunzinho, apresentava iluminação bem pior. Bem... Porém, eu notei que a lâmpada do outro era mais potente. Sendo assim, eu pedi a ela que trocasse as lâmpadas dos dois de forma que um ficasse com a do outro e, trocadas, depois mostrei a ela que, com a troca, o menor iluminava melhor o ambiente. Até aí, tudo certo. Ela concordou que o mais importante era a Luz e não a forma e os materiais que foram utilizados nos suportes. Eu até inventei o exemplo dos ladrões que foram pregados na cruz junto com Cristo e de quem hoje ninguém sabe os nomes nem "comemora" as mortes, porque não tinham luz. Mas a moça não era de se entregar facilmente e propôs colocar lâmpadas iguais para me provar que sim, a forma importava e o maior, por mais alto, clareava mais. Então, eu perguntei se ela procuraria algo à noite, no chão, com uma estrela ou isqueiro. Ela respondeu que no chão, com o isqueiro, mas no coração, com o luzeiro de estrelas. Me agradei da resposta dela mas reclamei da evasiva e lancei outra pergunta em desafio: indaguei da sua opinião sobre a razão de existirem abajures: se em razão da luz ou do escuro. Ela respondeu que era em função dos dois; da claridade presente e da escuridão do futuro, como vive, mais complexo, em função da água; dos leitos e da vida o rio. E foi além, aquela balconista, me dizendo que sabia muito bem onde eu queria chegar: que era ao ponto de mostrar a ela que a Alma vale mais que a matéria; mas que era engano porque as Almas não conseguem iluminar o mundo sem os suportes dos abajures humanos. Mas eu contradisse que as Almas vivem sem corpos, mas que eles sem elas, são carne a vagar. Era esperta a menina da loja que me treplicou: o que é uma Alma sem corpo pra amar? Eu fiquei meio tonto e decidi me entregar e a olhando nos olhos pela última vez resolvi perguntar: - “Minha Amiga! O que faz um ser tão jovem e tão sábio, aqui nesta loja, atrás de um balcão?”
-Eu estou aqui, neste lugar, em meio a tantos abajures para ninguém me enxergar. Eu me perdi do Amor e sou a escuridão que se esconde na luz.
Então eu perguntei:
- Se és a escuridão, como poderei te encontrar depois do trabalho, à noite, para continuarmos a conversa?
E ela:
-Me procure nas luzes do asfalto onde me suicido...E leve dinheiro...

 
Aldo Urruth
Enviado por Aldo Urruth em 29/06/2009
Reeditado em 21/01/2012
Código do texto: T1672705
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