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...DESENCANTO...



Devagar, num recolhimento religioso, como se penetrasse no ambiente sagrado de um templo, eu transpuz o humbral sombrio do seu gabinete de trabalho.
Senti num estrecimento, a sensação angustiada de quem profana um sacrario velado, escondido dos olhos curiosos e indiferentes.
Você, porem, era para mim um livro aberto, onde lia emocionada, a sua deliciosa personalidade fúlgura de artista. Infinitamente triste, sentindo as lagrimas borbulharem, umidecendo teimosas os meus olhos, fui revendo um por um os seus objetos queridos, os seus companheiros dedicados, esses que nunca falham...
Um raio palido de sol que se despedia, esgarçou-se na sala pensativa, pondo uma claridade dubia na escuridão silente.
A sua imagem eterea, adejava na cor esmorecida do "atelier", onde tudo falava mussitantemente de você, de você que o abandonou.
A sua ausencia abriu um hiato profundo e sem remedio, impossivel de ser preenchido. Seu pobre ninho obumbra-se feral, envolto num véu cheio de livores cinéreos.
O pincel que você alma fina de artista usava para criar na tela uma segunda natureza, jáz merencoreo, ao lado das tintas espalhadas.
Estas, descoloriram-se nas mãos destruidoras do tempo. Na tela escurecida e poeirenta, sorri em esboço um perfil de mulher...Seus livros queridos, dormem, espalhados nos divans, numa desordem deliciosamente boemia. As violetas roxas e odorantes, que habitualmente enfeitavam a sua mesa, feneceram de mansinho e jazem lividas, debruçadas na jarra azul de cristal...
No sortilego encantamento do seu santuario, eu sentia o bafejar dos seus derradeiros anelitos; o murmurio flébil dos seus labios.
Você , porem, não poderia mais rever...essa realidade angustiosa, se reverteu em lágrimas...Saí devagarinho do seu "atelier" solitario; se aluiu ali, em mim, a esperança louca que eu tinha de reve-lo, de vislumbrar o seu semblante meigo, talado qual uma flôr, num arroubo avido do destino. Sua alma, volatizou-se no ar impregnado do perfume
rescendente e suave, das violetas que tambem morreram.
Delas e de você, só ficou a sala eburnea o perfume... e a saudade...
Celisa Diniz Corrêa
Enviado por Celisa Diniz Corrêa em 01/10/2009
Código do texto: T1841375


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Sobre a autora
Celisa Diniz Corrêa
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Celisa Diniz Corrêa