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Doce California

 
  É engraçado como as fotos da Califórnia lembraram-me de sua doçura. O amarelo que escorria do seu cabelo, eu lembro bem, confundia-se com o verde recortado dos escassos coqueiros à beira da praia. Seu sabor açucarado ficava mais selvagem ao misturar-se com o salitre trazido pelos ventos do oceano pacifico.

  E você corria entre as palmeiras gigantes, com um cigarro, um cigarro branco que me dava alegria ao sair dos seus lábios e permitir que um lindo sorriso brotasse, de forma tão genuína que minha memória, mesmo fraca, consegue refazê-lo em detalhes - acrescentando apenas a poesia da minha alma ao ver seu singelo ato de sorrir. Depois do sorriso, seus braços abriam-se numa generosidade que caberia o mundo ali dentro.

  O mais engraçado e o que provoca mais sensação de agonia no corpo é a maneira como você gritava meu nome, com um sotaque de outro país, e me provocava até chegarmos correndo à praia. Eu devo agradecer imensamente à minha memória por me permitir vivenciar a água, que mesmo gelada trazia paz, escorregando pelas poucas partes que não nos tocávamos.

  Aquela sua cara de excitada e medrosa, pelo pudor, ainda persiste em habitar minha mente e aparece de vez em quando sem aviso prévio. Não vou ser hipócrita e dizer que aparece pouco. Não. Ela vem bastante, ainda mexendo com meus sentidos! E o cabelo molhado?!... ah, este insiste em encostar nos  meus ombros sem se importar em ainda ser seu ou de qualquer outra.
 
  Mas os ouvidos recusam-se a abrir para experimentarem novamente o ar que sai dos pulmões ofegantes e, quando estes se fazem presentes, todos os pelos arrepiam-se e tomam as dores dos ouvidos.

  As fotos também me trouxeram a deliciosa sensação do vento californiano no rosto, enquanto nossa van deslizava rapidamente sobre a highway em direção à cidade das estrelas hollywoodianas. Até vi aquela foto que tirei de você na van. Seus cabelos ficavam da cor de mel, pois se espalhavam na brancura do carro. E seu braço, nessa foto, parece sair das madeixas e afasta o cigarro lá fora do veículo.
 
  Você fez, na hora que fui bater a chapa, um bico bonito, mas exagerado, e você brincava comigo dizendo que o bico era sexy. Ai lembrei que eu adorava qualquer coisa que você fizesse. Por isso minha mente fez todo o trajeto da estrada que nos levou até a montanha do Mont Lee e quando seus olhos, tão profundos e atentos a tudo, viram o nome Hollywood eu ganhei uma promessa de nunca mais estar só novamente.
 
  Mesmo menos atenciosos do que os seus, meus olhos contemplaram seu corpo propositalmente inclinado bem à frente do nome do hotel de beira de estrada que resolvemos nos instalar. Naquela fotografia, minhas retinas perceberam a presença daquele homem bem lá atrás, no segundo plano.

  Não o descreverei poeticamente pois a meu orgulho não permite e é meu orgulho, latente em tal lembrança, que enche meu coração de uma sensação indescritível mas que causa uma vontade imensa de arrancá-lo do peito e destruí-lo na sua frente. Se não te causo amor, que pelo menos te cause trauma.

  Só que apesar da alma atordoada, a carne é fraca e minhas retinas optaram por voltar a explorar seu corpo. Sua inclinação era erótica, seus braços abertos instigaram uma vontade de me jogar no meio dos seus peitos. E estes fazem um revelo perfeito com um começo onde um belo peito deve começar e terminam um pouco antes de onde devem terminar. Um pouco antes pois se fossem perfeitos você não seria real.

  A outra imagem captada pela minha câmera fotográfica, a  mesma que quebrei depois de fotografar a maldita cena da rua de São Francisco, traz você na cama do hotel. E ai você disse que nosso filho poderia ser feito ali mesmo naquela cama. Ouvir isso de novo, ter em meus ouvidos aquele timbre suave, baixo e tranqüilizador que vinha de você, me fez chamar a mim mesmo de idiota e tudo que meu coração sentira por você na foto anterior, ele sentiu por mim.

  Talvez se eu não tivesse sido tão romântico nada daquilo aconteceria, e hoje eu não pagaria tão caro por atitudes impensadas. Não é só o lugar onde me encontro agora, mas também a foto de você, eu e ele tomando cerveja. O líquido que mais aprecio nunca estivera tão amargo e tão pesado quanto naquele dia.

  O problema é perceber isso só hoje, olhando a infernal foto.  Porque se eu percebesse o movimento de tudo, poderia evitar muita coisa ruim, não só em relação ao que sentia por você, mas também ao destino – se é que alguém tem este poder.

  Prefiro seguir adiante e, na minha cabeça, tornar móvel a imagem fixa de nós dois abraçados no lobby do hotel, e sentir sua mão tão delicada e macia quanto um fino veludo; que, como uma pétala de rosa, me alisava estimulando os desejos mais puros e verdadeiros que qualquer animal sente.

  Quando chegamos ao quarto, a sua meiguice e  doçura transformaram - se em um furacão carnal, deixando na minha pele uma marca de saliva que jamais secou, nem cicatrizou. Agora vendo esse registro imagético de nós, chega até mim uma sensação de excitamento tão grande que posso explodir novamente, da mesma forma que sua tepidez sensual fizera tal noite.

  No dia seguinte, você acordou cedo e me levantou. Pediu para que partíssemos logo, antes do desjejum. Tudo o que poderia fazer era obedecer, então, prontamente, levantei-me e te dei seus óculos de sol. Nesse momento, vejo sua foto usando eles e novamente meus olhos captam, lá no segundo plano da imagem, o mesmo homem, de olhar discreto, quase perdido, mas agora me dando a entender quem era mais esperto.
 
  Nessa chapa, captei seus pés tão delicados, no momento que faziam o passo em direção ao carro. E o vento faz seus cabelos voarem, dando-me a impressão de uma mulher maravilha, prestes a voar na minha direção. Você caminha, de frente pra câmera, permitindo que a cada polpa da bunda apareça alternadamente como uma protuberância arredondada, o que não é possível ver na foto pelo plano que você está, mas o movimento é perceptível pelos olhos do homem lá atrás, te olhando.
 
  Coisa que só enxerguei agora, revendo a foto. Porque na verdade, sem a foto, a minha memória fazia só a outra imagem, a que eu fiz pelas suas costas e ai já não havia homem no segundo plano, só a nossa van. E foi esse registro que me marcou, porque quando via a bunda subir e descer, era como se eu estivesse vendo Afrodite, a deusa do amor, caminhando de costas para mim, como uma feiticeira que tinha todo tempo do mundo.

  Então voltamos a sentir o vento na cara e quando novamente passamos pelo Mont Lee você me deu um beijo no rosto, e a água desse beijo ainda escorre pelas minhas bochechas e eu só não sei se essa água vem disso ou de mim, dizendo que em breve eu teria um herdeiro e um castelo.

  Eu acreditei porque as princesas entendem de castelo e de serem felizes para sempre, mas nas fábulas que eu lia era possível acabar com o vilão e você esqueceu de me avisar que nas suas, os vilões tornam-se protagonistas da história.

  Agora revejo a cena, congelada é claro, de logo que chegamos a São Francisco e entramos em um sebo para tomar um café. Você me pediu pra ler uma poesia e eu falei que não faria isso com os grandes poetas, seria covardia e eles iriam se sentir estúpidos, pois a poesia mais bem feita pela nossa espécie já sentava-se ao meu lado. E você me presenteou com o sorriso mais doce dessa história toda, então tive que registrá-lo fotograficamente.
   
  Engraçado é como ainda reconstituo o cenário de onde nos hospedamos. Havia uma mesa de cabeceira e encima desta, um vaso chinês, objeto que gostei muito mas não consegui fotografá-lo e nem sei o motivo, mas ainda o tenho na minha cabeça, tão bem desenhado quanto os chineses o haviam feito. Você jogou algo lá dentro e me disse ser uma surpresa. Minha curiosidade foi imensa, mas eu não resistia entrar em seu jogo então nem me atrevi a mexê-lo.
Olha só, achei uma foto minha, talvez seja a única foto só comigo eu tenho, e estou no bar, lembra-se? O bar que fomos na noite da nossa chegada. Parece mais um restaurante, mas eles chamavam de bar e tomamos dois chopes e três garrafas vinho. Eu bebi mais e fiquei muito bêbado, voltei quase caindo ao andarmos pro hotel. Lá você me disse estar preocupada com meus porres, me fez prometer não deixá-la mais assim. Eu dormi com os lábios esticados e acordei com uma dor de cabeça gigante.

  Hoje eu acho que a dor não era ressaca, era um prenúncio do destino, pois quando descemos você encontrou, por acaso, o mesmo cidadão que tomou cerveja com a gente e saía em segundo plano em algumas de suas fotos. Reparei na coincidência, mas não a ponto de achar que poderia acontecer o que aconteceu.
 
  Vocês saíram do lobby e foram fumar um  cigarro juntos, e agora que já se passaram anos, relembrando o fato, posso te confessar: quando você me pediu para tirar uma foto sua fumando, eu disse estar sem bateria na câmera porque você estava fumando ao lado dele e eu não queria fixar aquela imagem num papel.

  Já não bastava fixá-la na minha mente... e acho até que você notou isso, por isso não insistiu na Idéia – o que era de sua personalidade fazer – e disse apenas ainda querer uma foto fumando. Eu prometi fazê-la assim que tivéssemos oportunidade e bateria.

  E eu nunca esqueço a textura de sua mão suada, pegando na minha e me puxando para um pouco mais perto do seu corpo. Eu senti o gosto do néctar do seu beijo de forma tão forte que quase fico enjoado. É sempre assim quando o desejo é forte. Depois de deixar o açúcar na minha boca você me deu um beijo na bochecha e pediu para que eu pegasse uma garrafa de água.

  Quando coloquei aquele cartão que a tecnologia fez para substituir a chave, na porta, meu coração ficou mais gelado do que as noites que passamos em Las Vegas, pouco antes de chegarmos à Califórnia, e quase parou.

  A tontura tomou conta da minha mente e só não apaguei, pois os pensamentos flutuaram diretamente pra você e aquele homem. Eu só senti vontade de descer correndo, por isso, abri rapidamente a geladeira do apartamento e peguei a máquina num ato brusco.
Quando cheguei onde vocês estavam não vi mais nada, só o cheiro forte do cigarro de filtro branco que vocês fumavam; o local ficou preto, minha vista turva e todos os músculos estremeceram. Eu tinha certeza do que acabara de acontecer, mas não tinha vontade de me convencer disso.

  Comecei a andar loucamente pelas ruas e enquanto subia e descia as ladeiras de São Francisco, tinha os olhos atentos a tudo, tão atentos ao destino que quase não prestava atenção ao que passava perto de mim. E automaticamente fui andando, com a câmera pendurada e a garrafa de água na mão direita.

  Segurar aquilo me trazia um peso que eu duvidava que meus músculos, aqueles trêmulos, fossem capazes de carregar, mas eu pensava no quanto deveria ser forte, até porque não era a primeira vez que você me escapava assim. E novamente pensei como eu amava tudo que vinha de você e isso me fez ter raiva de mim mesmo e me senti a pior pessoa do mundo. Mas era melhor ser a pior pessoa do mundo ao seu lado e ter amor no coração do que viver vazio, sem ilusão. Pobre dos que não têm com o quê se enganar.

  E enquanto uma lágrima seca escorre pelas minhas bochechas, abro a foto que tirei de cima e mostra o imenso porto de São Francisco. É incrível como mesmo grande, parece que será inundado pelo mar. Naquelas lojinhas, comprei um cartão postal só para constar minha passagem por ali. Fotografei o porto. Bem à esquerda, a Golden Gate Bridge cortava parte do mar e este se preparava para engolir a mim e a toda cidade de São Francisco.

  E continuei descendo até chegar lá. Mas não via sombra de nenhum dos dois. Dei um gole de água que quase arranha minha garganta e segui em passos trôpegos. Segui sem sentir mais o chão e nem mesmo meu corpo ou os músculos que outrora tanto tremiam. E mesmo tendo a foto, não sei se a tirei no meu sonho e acordei para quebrar a câmera ou se, de fato, vi a cena.

  Mas a imagem está aqui, como um punhal que adentra minhas entranhas e rasga qualquer fagulha de vida existente em minhas vísceras. E vendo ela, ainda chega à minha boca o gosto acre do seu mel.
Malluco Beleza
Enviado por Malluco Beleza em 03/04/2011
Reeditado em 15/03/2012
Código do texto: T2886732

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Sobre o autor
Malluco Beleza
Salvador - Bahia - Brasil, 34 anos
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